O Presente

Quarta-feira,  8 de Setembro de 2010

ARTIGOS

Tarcísio Vanderlinde

[carregando]

O autor é professor da Unioeste, campus de Marechal Cândido Rondon

É UM AVANÇO

21.08.09
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O discurso sobre a transgenia anda cauteloso. Já não aponta resultados tão certinhos como se ouvia nas discussões preliminares. O dado irônico que se pode tirar do atual estágio das discussões é de que os cultivos transgênicos precisam preservar parte da natureza no intuito de melhor viabililizá-los. Para uma “boa” transgenia é preciso ter cultivos convencionais ou agroecológicos. Embora desconfiados, os defensores da sustentabilidade consideram a postura como um avanço do bom-senso.
Pesquisadores da Embrapa, além de outros engenheiros agrônomos, na defesa do milho Bt (transgênico), dividem suas opiniões entre a apologia do avanço científico e uma cautelar ética do cuidado. Esta ética leva em conta a natureza e os agricultores que optam por manter os cultivos convencionais. Admite-se que lidar com transgênico possa ser perigoso, e sendo assim é preciso ter atitudes prudentes e seguir a lei (O Presente Rural, julho de 2009).
A lagarta-do-cartucho é a vedete da vez e de longe o argumento mais poderoso para a utilização de sementes do milho Bt. Mas outras vantagens também são apontadas: redução da aplicação de agrotóxico, a comodidade para o produtor, a diminuição da incidência de toxinas e, consequentemente, a oferta de alimentos mais saudáveis para humanos e criações. Quanto aos alimentos saudáveis, se não for possível contestar a ideia cientificamente, o assunto gera ao menos uma saudável desconfiança. No caso do milho Bt, seu impacto sobre a natureza é significativo. E não são os impertinentes que estão afirmando isso. A constatação vem da legislação específica e de outros cuidados que se deve ter ao cultivar o Bt. Cultivar Bt pode causar danos ambientais, sociais e econômicos se considerada a democracia dos cultivos alternativos.
O gargalo está na polinização que pode expandir os territórios transgênicos independente da vontade dos que imaginam estar cultivando de forma correta o produto. A área de coexistência, prevista em lei, uma espécie de filtro para impedir o alastramento da polinização, não é 100% eficiente. Como existem fatores aleatórios que interferem na polinização, simplesmente não existe diálogo eficiente entre produtores ou treinamento de operadores de equipamentos que possam garantir uma prática segura da produção transgênica. A área de coexistência entre cultivos diferenciados não impede intercâmbios indesejáveis. A natureza não funciona de forma matematizada como foi concebida a área de coexistência.
Porém, a maior ironia da questão está na proposta de áreas de refúgio que são formados por cultivos convencionais, mas em conexão estratégica com a área de cultivo transgênico. Sem as áreas de refúgio a tecnologia transgênica poderá ser abalada e ter seu desempenho comprometido. O refúgio seria necessário para que os insetos que resistiram ao tratamento químico na área do cultivo transgênico se cruzem com os que estão na área de refúgio e percam resistência, transmitindo assim esta característica para a geração seguinte dos insetos que tentarão povoar novamente a área de cultivo transgênico.
A natureza é de fato sábia, embora, no contexto de uma racionalidade técnica, muitas vezes, se valorize certo “contorno científico” para descobrir, enfim, que a solução já estava ali. Ela mesma, a natureza, pode oferecer os indicativos como utilizá-la de forma responsável. A natureza sempre foi um refúgio confiável e estratégico para sustentabilidade. E é positivo que os defensores da transgenia redescubram isso.

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