ARTIGOS
PROBLEMAS COM O EGO ANTROPOCÊNTRICO
04.09.09
O movimento ambientalista pode estar evitando dizer toda a verdade sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas, temendo que isto incentive uma atitude de inércia, em relação às mudanças necessárias. Esta é a opinião do ambientalista Henrique Cortez, coordenador do portal EcoDebate, e que motiva esta reflexão a partir de matéria publicada no Correio da Cidadania em 25 de agosto de 2009. Na opinião do ambientalista, o debate honesto e franco seria a melhor forma de enfrentarmos a situação. O problema estaria na nossa forma perdulária de viver. Acabamos elencando um sem número de receitas “adequadas” ao ambiente, mas não somos capazes de adotar uma prática eficiente em nosso cotidiano, pois estamos mal acostumados com as delícias do progresso.
Muitos ambientalistas entendem que a luta contra o aquecimento global é uma luta contra nós mesmos. E seria exatamente esta batalha que estaríamos perdendo. A constatação é que sofreremos as terríveis consequências do aquecimento global, porque não somos capazes de reconhecer que nosso padrão de consumo é insustentável e não temos coragem de assumir que nosso modelo de desenvolvimento é predatório e injusto. Quanto mais protelamos as decisões, mais agravamos o desastre que se anuncia.
A frota mundial de veículos ultrapassa 800 milhões de unidades, crescendo mais de 30 milhões ao ano. Esta é uma crescente crise ambiental tida como consenso, mas um consenso oco porque ninguém está disposto a abrir mão de seu fetiche automotor, mesmo que fique entalado por horas em alguma das grandes cidades do Planeta. A cidade de São Paulo a cada dia bate um irônico recorde de quilômetros de congestionamento.
Outro aspecto relacionado ao assunto, e que por aqui às vezes é utilizado como argumento para derrubar a última árvore ainda em pé, é o discurso falacioso da escassez mundial de alimentos. O que se constata é que a produção de alimentos é muito superior ao necessário para alimentar o planeta, mas a especulação e nosso desperdício exigem produção crescente, fazendo com que a fronteira agropecuária avance sobre as florestas. Exigem-se mudanças no Código Florestal e a cobrança de maior produtividade impõe cada vez mais agroquímicos, que envenenam o solo, os mananciais e nos envenenam lentamente todos os dias.
Ninguém está disposto a reduzir a demanda crescente de energia elétrica, mesmo que isto signifique mais barragens, mais termelétricas a carvão, gás ou nuclear, represando ou vaporizando volumes imensos de recursos hídricos cada vez mais escassos. Todos concordam com este “sacrifício”, desde que ele seja no quintal do vizinho. Nosso delírio consumista já consome o equivalente a 1,4 planeta a mais do que temos. E ninguém está disposto a reduzir o padrão de consumo.
É evidente que a redução das emissões de gases estufa e a opção por um modelo sustentável implicarão em pesados custos sociais e econômicos, mas não temos alternativa para garantir a vida no planeta. Os recursos necessários para mudar o insustentável modelo econômico, baseado na produção/consumo, sempre existiram. É só questão de uma decisão política responsável. No entanto, se prefere continuar incentivando o consumo como a solução mágica para os nossos males.
Frequentemente dizemos ou ouvimos sobre os nossos compromissos para “salvar o planeta”. Constata-se não haver esta possibilidade, porque nosso ego antropocêntrico infantil não está à altura da tarefa. A batalha contra o aquecimento já estaria perdida, mas ainda se poderia fazer alguma coisa contra as piores consequências. Mas para isso precisaríamos vencer a luta contra nós mesmos ou muito perderemos. Muito mais talvez do que apenas o nosso perdulário e tolo padrão de consumo.
* O autor é professor da Unioeste, campus de Marechal Cândido Rondon
tarcisiovanderlinde@gmail.com
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