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Quinta-feira,  9 de Setembro de 2010

ARTIGOS

Tarcísio Vanderlinde

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O autor é professor da Unioeste, campus de Marechal Cândido Rondon

MODERNIDADE E IDEOLOGIAS MASCULINAS

27.11.09
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A crítica da modernidade é uma questão ideológica imprescindível nas discussões sobre sustentabilidade: parece que jamais fomos modernos, pois jamais conhecemos a emancipação propalada pelo projeto da modernidade. No diálogo estabelecido com diversos pensadores, em sua defesa de tese, Everton Batistela (2009) conclui que a sustentabilidade é o significante de uma falha fundamental na história da humanidade. O que se observa é que “a força libertadora da modernidade enfraquece à medida que ela mesma triunfa. Foi preciso destruir o mundo em teorias para que pudéssemos destruí-lo na prática”.
O crítico norte-americano Immanuel Wallerstein (2002) lembra que nos tempos de sua faculdade, em finais da década de 1940, estudava-se as virtudes e realidades de sermos modernos. Hoje, quase meio século depois, estaríamos sendo informados sobre as virtudes e realidades de sermos pós-modernos. O que teria acontecido com a modernidade, que não é mais a nossa salvação e tornou-se o nosso demônio? Ela que deveria ter sido o presumível triunfo da liberdade humana contra as forças do mal e da ignorância? A modernidade formata a ideia de progresso que desacreditada deságua no desenvolvimentismo, criando-se assim uma espécie de “oitavo dia”, impulsionado pela função utilitarista do mercado. 
O desastre da modernidade pode ser curiosamente atribuído ao triunfo das “ideologias masculinas” discutidos por muitos críticos do progresso. Neste sentido, vale a pena prestar atenção ao “androcentrismo”. O depoimento de uma das mulheres entrevistadas durante a pesquisa de Batistela pode ser revelador: “As primeiras agricultoras eram mulheres, historicamente na história da agricultura quem começou foram as mulheres, justamente por terem mais sensibilidade e maior percepção, e é justamente isso que precisa uma agricultura alternativa, mais sensibilidade e percepção de detalhes. Na agroecologia são coisas sutis que fazem a diferença e as mulheres percebem isso com mais facilidade”.
O depoimento é incontestável e se aproxima da discussão da ética do cuidado realizada por Leonardo Boff (2008) e do desastre explícito das “ideologias masculinas” discutidas por Fritjof Capra (2005). A constatação é que a exaltação do consumo material tem raízes ideológicas profundas, que vão muito além da economia e da política, elas estariam ligadas à associação universal da virilidade com os bens materiais nas culturas patriarcais, ou seja: quanto maior a quantidade de bens materiais detidos pela pessoa, mais heróica, mais forte ela é.
Com a modernidade o mundo passou a ser entendido mecanicamente com leis deterministas intrínsecas a sua própria realidade. Esse ponto é fundamental, pois supõe a obsolescência do conceito de Deus como explicativo e regulador do funcionamento do mundo e da humanidade, por extensão. No diálogo com seus interlocutores, Batistela observa que nas sociedades medievais os indivíduos encontravam base firme para o desenvolvimento de suas identidades individuais, através de uma firme base meta-histórica (Deus). No tempo presente, a agroecologia emerge como opção aos avanços desastrosos da modernidade. (Re)introduz um senso de orientação ética ofuscado por atitudes como o uso do secante químico e outros “remédios” letais criminosamente utilizados para homogeneizar e acelerar os processos naturais de crescimento e amadurecimento das plantas. A sustentabilidade que todos almejamos só poderá se materializar na superação destes maus costumes, ou seja: na superação das “ideologias masculinas”.

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