ARTIGOS
UM LUGAR CHAMADO SEFARAD
11.12.09
A visita de Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil nos fez lembrar que alguns ódios e preconceitos continuam presentes na sociedade contemporânea e podem estar muito além da economia. O reconhecimento do outro como sujeito histórico, porém não se restringe no âmbito da política internacional. Na individualização provocada pela modernidade, há um campo promissor para a fertilização da intolerância. Mas nem sempre foi assim. Já existiu um lugar chamado Sefarad.
O nome Sefarad apareceu pela primeira vez no livro do profeta Abdias. Mais tarde nos século II e VI E.C. Sefarad, seria associado ao de Hispânia, nome com o qual se designava o território da Península Ibérica. De acordo com fontes disponibilizadas em muitos sites, livros especializados e nas velhas e confiáveis enciclopédias, Sefaradim são os judeus originários daquela região cujo estabelecimento remonta segundo as tradições locais, desde o exílio babilônico, ou seja, desde a destruição do Primeiro Templo no século VI A.C. As provas sobre a presença judaica na região de Sefarad datam desde o primeiro século da nossa era, quando Hispânia era uma província do Império Romano. Os judeus de Sefarad estiveram sobre o domínio dos visigodos e quando estes se converteram ao catolicismo passaram a sofrer restrições em suas atividades religiosas e sociais sendo obrigados a adotar a fé cristã durante o reinado de Sisebuto, em 612. Até o final da hegemonia gótica na Península, os judeus viveram como uma minoria discriminada por uma legislação extremamente opressiva.
Quando os muçulmanos conquistaram a Península Ibérica, em 711, os judeus tiveram a oportunidade de participar ativamente no estabelecimento do novo poder ascendendo a altos postos governamentais e administrativos. A convivência entre as culturas muçulmana e hebraica permitiu e levou a uma simbiose cultural que se refletiu na criatividade judaica peninsular. Assim, o período denominado “A Idade de Ouro”, entre os século XI e XIII, se caracterizou por um extraordinário intercâmbio entre as três religiões: o Cristianismo, o Islam e o Judaísmo promovendo um renascimento das artes, da literatura, das ciências e da filosofia jamais visto anteriormente. A atmosfera de tolerância em Sefarad levou a que se tornasse um dos centros importantes da Europa Medieval atraindo sábios de outros reinos a fim de atuarem em suas escolas e universidades.
Contudo a harmonia existente entre as populações peninsulares sofreu por várias vezes abalos devido a movimentos fundamentalistas como o dos Almorávidas e Almoadas. A partir do século XIV grandes alterações ocorreriam no relacionamento entre Judeus e Cristãos e que afetariam profundamente a estabilidade das comunidades sefaraditas. O desenlace final desse processo que assinalava claramente a sua decadência dar-se-ia com a instalação da instituição inquisitorial, na segunda metade do século XV, e tornaria a vida judaica quase que impossível em Sefarad.
A longa trajetória histórica da presença judaica na Espanha se encerraria dramaticamente com o Édito de Expulsão promulgado pelos reis católicos, Fernando e Isabel, em 31 de março de 1492. Dispersos, criaram novas comunidades na Europa, África do Norte e Oriente Médio, levando consigo a espiritualidade gerada durante séculos em Sefarad e preservada pelo Ladino, ou o idioma Espanhol do século XV.
O legado histórico de Sefarad nos mostra que tolerância e cooperação podem dar resultados mais satisfatórios do que posturas fundamentalistas que na maioria das vezes só conseguimos identificar nos outros.
* O autor é professor da Unioeste, campus de Marechal Cândido Rondon
tarcisiovanderlinde@gmail.com
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