ARTIGOS
O papa Bento XVI e a Quaresma deste ano
06.03.10
A cada ano o Santo Padre escreve uma mensagem para a Quaresma, com o objetivo de nos ajudar a bem viver este tempo forte da vida eclesial. Quaresma é um tempo oportuno para fazer uma revisão de vida à luz dos ensinamentos evangélicos trazidos por Jesus de Nazaré. Desta vez, Bento XVI centra sua mensagem em uma frase da carta de São Paulo aos cristãos de Roma: “A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo” (Rm 3,21-22).
O conceito de justiça, na linguagem jurídica comum, é entendido como “dar a cada um o que é seu”. Bento XVI procura precisar “o que é seu” na perspectiva da fé cristã, pois somente a lei não é capaz de garantir o que pertence a uma pessoa. Por exemplo, continuamente somos bombardeados de que a constituição brasileira determina que o salário-mínimo contemple a concessão de uma vida digna aos cidadãos. É lei, mas todos nós sabemos que o salário mínimo não assegura a determinação constitucional.
Inegavelmente precisamos de todos os dons materiais para nossa vida, mas estes são insuficientes para plenificar nosso ser. Diz o papa: “Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais íntimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado à sua imagem e semelhança”.
A mensagem papal, apoiando-se no texto do evangelista Marcos, diz que é do interior do coração humano que saem os maus pensamentos (cf. Mc 7,20-21), mostra que “a injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, encontra dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo. Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?”.
Na língua hebraica a palavra justiça (sedaqah) tem um duplo contexto: aceitação plena da vontade de Javé e equidade em relação ao próximo, pois a fraternidade, vivenciada na solidariedade e partilha, é o modo de retribuir a Deus o muito que a ele devemos. O entendimento correto da palavra justiça exige sair da ilusão da autossuficiência e reconhecer-se dependente do Senhor.
O conceito cristão de justiça exige levantar o olhar para Jesus crucificado e visualizar que não são os sacrifícios do homem que o libertam do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo na doação da própria vida. No derramamento de sangue de Cordeiro Pascal inocente manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da humana: “Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidência que o homem não é um ser autárquico, autossuficiente, mas precisa de um “Outro” para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da autossuficência para descobrir e aceitar a própria indigência e a dos outros, e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade”.
O Santo Padre aponta os caminhos dos sacramentos da Penitência e Eucaristia, só executados pelos corações humildes que percebem a necessidade do Senhor em suas vidas: “Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça ‘maior’, que é aquela do amor (cf. Rm 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que poderia esperar. Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor”.
* O autor é bispo da Diocese de Toledo
curia@diocesetoledo.org
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