ARTIGOS
O risco do diabetes
18.03.10
Esta semana atendi em meu consultório uma paciente que teve o diagnóstico de diabetes há dez anos. Na época, ter a doença para ela não significava muito, visto que não sentia nada e, como sabemos, a maioria das pessoas só se preocupa com a saúde quando sente dor ou perde alguma função importante do corpo. Entretanto, infelizmente a natureza não considera se o indivíduo sabe ou não dos riscos que corre, e a história natural da doença ocorreu com essa senhora. As altas taxas de açúcar no sangue, ao longo de anos, desencadearam as temidas complicações e ela perdeu completamente a visão, além de sentir dores muito fortes nas pernas, que não melhoram a despeito das várias medicações utilizadas. Por ser médico, sei que tais agravos surgiram pelo descontrole do diabetes desde o diagnóstico, mas explicar o motivo de terem ocorrido não trará de volta sua visão, tampouco aliviará suas dores. Caberá a mim, então, buscar outra forma de consolá-la. Não será um desafio fácil.
Mas nem tudo na vida são espinhos, e atendi também outro paciente que acabou de saber que tem diabetes. A notícia pode não ter sido das melhores, mas ele ainda não sabe que tem a oportunidade única de mudar completamente a sua vida, para melhor. O tratamento efetivo da doença no início, como deve ser, previne completamente o surgimento das complicações, e muitas pessoas conseguem até ser muito mais saudáveis do que antes. Exemplo disso é o ex-nadador olímpico Gary Hall Jr., que tem diabetes tipo 1 e ganhou cinco medalhas de ouro nas olimpíadas que competiu, assim como a atriz norte-americana Angelina Jolie, que também descobriu ser diabética e não deixou de fazer sucesso por isso.
O que diferencia essas pessoas e faz com que elas tenham uma evolução melhor após terem o diagnóstico de diabetes? Primeiramente é a aceitação da doença. Posteriormente, vem a mudança no estilo de vida, através da adoção de uma alimentação mais saudável e da prática regular de atividade física. O grande desafio é que muitos negam a doença, ou tentam amenizá-la tentando convencer a si mesmos de que o “açúcar no sangue” não está tão alto, e que podem deixar o tratamento para depois. Além disso, não é fácil convencer uma pessoa que não sente nada de que deve mudar completamente seu estilo de vida, para que tenha saúde em um prazo médio de 10 anos. Mas o fato é que aqueles que entendem o recado e conseguem implementar tais mudanças escrevem seu próprio destino e fazem do diabetes somente uma ferramenta para um vida mais saudável. Porém, os que preferem recorrer à negação ou não se dispõem a mudar, inevitavelmente enfrentarão as consequências, cedo ou tarde.
Parece-me então que, como tudo na vida, o melhor desfecho depende da nossa capacidade de adaptação a uma situação nova e inesperada. Ninguém quer enfrentar obstáculos, mas se eles surgem, decidimos se vamos saltá-los, desistir, ou fingir que eles não existem. Neste caso, o papel do médico é o de orientar sobre a doença e fornecer as ferramentas para um autocuidado. A decisão de seguir as orientações médicas é sempre individual, afinal temos a dádiva do livre-arbítrio.
Para a primeira paciente as dificuldades serão maiores, pois além de já apresentar as complicações, terá de mudar seu estilo de vida, se não quiser piorar ainda mais sua situação. Já o segundo paciente terá a chance valiosa de mudar sua vida para melhor, e meu papel como médico é tentar fazê-lo entender esse cenário.
Não custa lembrar que saúde não é somente a ausência de doença e que o diabetes não é o único agravo que é passível de prevenção através de um estilo de vida mais saudável.
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