ARTIGOS
PARA ALÉM DO CONSUMO
30.04.10
A digressão que o escritor Zygmunt Bauman constrói no livro “A arte da vida” (2009) pode ser considerada o ponto nevrálgico da obra. A partir de uma análise crítica do pensamento de Friedrich Nietzsche e Emmanuel Levinas, Bauman sugere possibilidades de se construir a vida como obra de arte. Bauman avalia que nossa época é a época da ressurreição de Nietsche, pois os consumidores da era líquido-moderna podem citar o filósofo e evitar acusações de incorreção política, esquivando-se assim de colocar sua própria assinatura e gerar um ultraje público. O “Übermensch” (Homem Superior ou Super-homem) de Nietzche poderia dar-se a esta prerrogativa.
O “Übermensch” de Nietzche se contrapõe à categoria da “responsabilidade” percebida na obra de Emmanuel Levinas. Bauman explica a diferença entre as duas correntes de pensamento: “A primeira sugere um programa de cuidados com o ego, de esforço do ego e de preocupações totalmente auto-referenciais. Também apresenta a busca da felicidade como um esforço de autopromoção. A segunda oferece uma perspectiva de cuidado e preocupação com o outro - e a felicidade de ‘ser para’”. No diálogo com Levinas, o autor alerta que aceitar a responsabilidade ética pelo outro é, sobretudo, uma questão de escolha, tendo poucos ou nenhum ponto ao seu favor, exceto a voz da consciência. E no que se refere a ver claramente o que torna a vida feliz, concorda com Sêneca, para quem esta jornada é um continuo tatear em busca da luz.
No pensador Ivan Klima, Bauman descobre que a criação de uma relação mútua que seja boa e duradoura, em total oposição à busca do prazer por meio dos objetos de consumo exige um grande esforço. A relação com o outro requer tolerância e consciência de que não se deve impor ao companheiro suas perspectivas ou ideais nem ser um obstáculo à felicidade dele.
No intuito de concluir estes breves recortes sobre o texto de Zygmunt Bauman, considera-se oportuno o destaque onde o autor assim se posiciona: “O amor, devemos concluir, se abstêm de prometer um caminho fácil para a felicidade e o sentido. O ‘relacionamento puro’ inspirado pelas práticas consumistas promete este tipo de vida fácil, mas, pela mesma razão, torna a felicidade e o sentido reféns do destino”. Este amor tão declamado, tão deturpado e pouco compreendido não é uma mercadoria que se pode encontrar em gôndolas de supermercado. É algo que precisa ser sempre e novamente construído e reformado a cada dia, a cada hora, constantemente ressuscitado, reafirmado, servido e cuidado.
A restauração da ética a partir do exercício da responsabilidade pode aproximar o ser humano da felicidade. A vida como arte e não apenas como uma caricatura requer esta descoberta. Descoberta e prática não emergem, contudo de uma receita “fast food”. Em “A arte da vida”, Bauman propõe a reintrodução da ética na sociedade líquida. A resposta a esta proposição sempre vai requerer uma escolha.
É preciso admitir que numa era de relacionamentos frouxos e descartáveis não há mais apelo para perenizar escolhas. Em textos anteriores Bauman já havia observado que na era da globalização a causa e a política de uma humanidade compartilhada estaria a enfrentar a mais decisiva de todas as fases já atravessadas em sua longa história. Porém, restaria o consolo de que a história ainda estaria sob nosso controle e, portanto, ela poderia ser (re)construída. E se a história não terminou, então escolhas ainda poderiam ser feitas.
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