O Presente

Sábado,  4 de Setembro de 2010

ARTIGOS

Tarcísio Vanderlinde

[carregando]

O autor é professor da Unioeste, campus de Marechal Cândido Rondon

Valeu a pena

14.05.10
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Só nos recordamos verdadeiramente daquilo que nos era destinado. A memória não lê as cartas alheias (Vilhelm Ekelund)

Para a maioria dos brasileiros, o fato mais marcante do ano de 1970 foi o Mundial de Futebol no México. Aquele evento transformaria a seleção brasileira do “tri” numa lenda. Porém, dependendo da pessoa, outros acontecimentos significativos podem também ter marcado aquele ano.
O Grupo Escolar Tiradentes do distrito de Mercedes localizava-se num prédio onde dois anos antes havia também começado a funcionar o Ginásio Cenecista Willy Barth. Nos primeiros anos de funcionamento do ginásio, que no início era só à noite, a iluminação era feita com lampiões a gás. Mas logo a eletricidade da Copel chegaria naquele lugar mudando a cara da noite. Foi ali que na primeira semana de maio de 1970 me vi frente a frente, pela primeira vez, com uma turma de alunos, e começava de forma muito insegura minha atuação profissional. Era uma turma de “admissão”. Tinha este nome por ser uma espécie de classe preparatória para cursar o ginásio.
Naqueles dias não tinha muito consciência do desafio que me foi posto. Comecei a trabalhar ali, pois havia uma vaga de professor. Estava para completar 17 anos e lembro-me de ter tido um aluno da minha idade, o Alberto. Minha sorte é que Alberto se tornou um grande cooperador naqueles primeiros e indecisos passos. Mais tarde, Alberto também se tornaria um professor.
Entre o pó e a lama, eu frequentava a Escola Normal Colegial em Marechal Cândido Rondon no período da manhã e lecionava à tarde. À noite estudava e preparava as aulas em casa. Ao concluir aquela semana, pensei em desistir e procurar outro emprego. Na segunda-feira voltei lá.
Naquele tempo os textos didáticos eram restritos. Era praticamente tudo na base do quadro-negro e do giz. Esforcei-me para aprender algumas notas no violão e levar um diferencial para a sala. Funcionou. Na sequência surgiu até um coral infantil ainda lembrado por muitos, agora senhores e senhoras do lugar. Aos poucos foi chegando mais tecnologia. Apareceu um mimeógrafo a álcool. Dava para inventar muita coisa naquele mimeógrafo. Nos anos seguintes foi possível adquirir um projetor de slides, que se tornou uma grande sensação e me ajudou muito na atuação docente. Viagens e o cotidiano dos estudantes e da comunidade eram marcados por concorridas sessões de slides. A geração atual de estudantes não imagina o trabalho que dava para fazer os slides da primeira geração.
Acompanhado pelo professor Edo, que agora é o diretor da escola, mas que nos anos de 1970 também foi meu aluno, ao final da primeira semana de maio de 2010 voltei para aquela sala onde tudo começou. O Colégio Cenecista desapareceu e no seu lugar surgiu o Colégio Estadual Leonilda Papen de Ensino Fundamental e Médio. A Escola Tiradentes está num prédio novo não muito longe dali. Porém, a sala onde comecei está em uso. Junto à TV, pen drive e o climatizador, ainda o velho quadro-negro onde rabisquei as primeiras lições aos meus alunos. No pátio central um enorme flamboyant que plantamos juntamente com os estudantes da época. Entre lembranças, a explosão impressionante de rostos jovens a desafiar o conhecimento e a criatividade do grupo de professores que ali atua. Com emoção, compartilhei com o “terceirão” da tarde o motivo da minha visita naquela sala.
Valeu a pena? Com uma ajudazinha de Fernando Pessoa eu responderia de que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Passando por constrangimentos, recomeçando ou mudando de rumos, dificilmente a gente se arrepende daquilo que foi feito com paixão.

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