O Presente

Quarta-feira,  8 de Setembro de 2010

ARTIGOS

Tarcísio Vanderlinde

[carregando]

O autor é professor da Unioeste, campus de Marechal Cândido Rondon

PARAÍSO COMPROMETIDO

23.07.10
Tamanho da letra A +A -

“... A ciência, a arte e a indústria hão de transformar a Terra em Paraíso, para todos os homens, sem distinção de raças, crenças, nações...” (fragmento do credo de Rondon)

Em seu diário de selva, ao final do século XIX, Cândido Mariano da Silva Rondon registrou uma frase que marcaria sua vida e o identificaria como uma das figuras mais éticas da nossa história. A frase se tornaria o lema que orientaria todo o seu trabalho em relação aos indígenas brasileiros, dos quais era descendente e que chamava de “nossos irmãos”: “morrer, se necessário for; matar, nunca”. Embora a mais conhecida não foi a única frase ou ideia significativa que Rondon deixou. A epígrafe, fragmento do credo de Rondon, revela influência de sua crença positivista. A despeito das limitações da forma positivista de se ver o mundo, o credo denuncia as convicções do sertanista e pode ser considerado uma síntese do seu pensamento utópico em relação ao homem e ao universo onde vive.
Em suas lendárias andanças pela selva, Rondon havia topado com as cabeceiras de um rio que não se sabia aonde ia dar. Batizou-o de “Rio da dúvida”. Mais tarde, por volta dos anos de 1914, chefiando uma expedição da qual fazia parte o ex-presidente estadunidense Theodore Roosevelt, o mistério do rio enigmático acabou por ser desvendado. Tratava-se de um afluente do Rio Madeira e que acabou por ser rebatizado como Rio Roosevelt em homenagem à ilustre companhia de Rondon.
Chamado pelo seu discípulo Darcy Ribeiro de “Protetor dos índios e Marechal do Humanismo”, Rondon acreditava que a ciência, a arte e a indústria poderiam transformar a Terra num paraíso. Se ainda vivesse, talvez sua convicção pudesse desaguar num “novo rio da dúvida”, ao constatar que “forças egoístas” sobre as quais também menciona o credo parecem estar comprometendo a vida humana no planeta. O paraíso imaginado por Rondon está abalado porque as artes, a ciência e a indústria não são entes que se desenvolvem por si. Elas podem ser conduzidas por seres que se consideram humanos e que não ligam muito para ideais a não ser os deles próprios.
Depois de 50 anos de emancipação política do município que leva o nome do humanista não se pode negar que este município não tenha se desenvolvido social e economicamente. Juntando-se à agricultura, diversas indústrias e universidades se materializaram neste território de vida. O progresso chegou, mas, às vezes, também pode mostrar seu lado obscuro.
Há quem pense, por exemplo, que ainda têm árvores demais no município. Continuam se despejando nas lavouras locais milhões de litros de agrotóxicos a cada ano. Quando se vai ao supermercado não se tem segurança sobre aquilo que se compra para consumir. Após 50 anos de “desenvolvimento”, ainda não se tem um adequado serviço de saneamento na cidade, desperdiça-se muita água num lugar que ela já não é abundante, e, para surpresa de muita gente, têm pessoas que consideram normal jogar dejetos nas galerias construídas para esgotar a água da chuva. Por outro lado, o “progresso” pode também estar sendo sustentado por pessoas que temem falar da intimidade das suas condições de trabalho.
A lista de inconveniências que integra o cenário comprometido é longa e é mais ou menos do conhecimento geral. Muitos que poderiam contribuir na neutralização das inconveniências consideram que estes assuntos não são importantes ou que poderiam ser discutidos mais para frente. Resta saber se as gerações que se sucederão merecem herdar os costumes questionáveis das gerações que agora se omitem.

Versão para impressão Enviar por email

Banner O Presente Rural

Classificados O Presente

ANTENA P/ INTERNET - vendo, R$ 200,00. Tr. (45)8823-0219 com Claudia.

APARTAMENTO - Ofereço p/ alugar, 1 quarto de casal, sala, cozinha, s/ garagem, na R. 7 de Setembro nº 436, Prédio Batske, R$ 380,00, incluso água e condomínio. Tr. (45)3254-3141 ou 9971-1150.

Veja +

Mais artigos de Tarcísio Vanderlinde

O NOVO CONTEÚDO AMBIENTAL: a criminalização da floresta
03.09.10 Após o período eleitoral, deverá voltar ao cenário político a discuss&at...
CÓDIGO FLORESTAL E IDEOLOGIA
20.08.10 “... cabe reconhecer o ativismo ambientalista de grande parcela de militância generosa, que...
PELAS VOZES DE BOM SENSO
06.08.10 Na opinião de críticos, a nova proposta do Código Florestal Brasileiro, aprovada na Co...
PENSAR PODE FAZER MAL
25.06.10 “O mundo ficou hoje mais burro e mais cego”(Fernando Meireles, ao comentar a mo...
PARA ALÉM DE UM SÍTIO DE FÓSSEIS
11.06.10 Há quem imagine que se a simbologia religiosa pudesse ser extirpada dos ambientes considerados p&uac...
A UTOPIA DO MISSIONÁRIO VAGABUNDO
28.05.10 “Ver-se-ão ainda velhos e velhas sentados nas praças de Jerusalém, tendo cada um...
Valeu a pena
14.05.10 Só nos recordamos verdadeiramente daquilo que nos era destinado. A memória não lê...
PARA ALÉM DO CONSUMO
30.04.10 A digressão que o escritor Zygmunt Bauman constrói no livro “A arte da vida” (200...
SEGREDOS DA TÚNICA
02.04.10 “Amarei a luz porque me mostra o caminho; não obstante amarei a escuridão porque me faz...
Ver Todos
 
Voz do Leitor

12.02.09 - BRUNO JOSÉ STEFFENS: SÓ TENHO UMA COISA A FALAR SOBRE O EDITORIAL DE HOJE (12), ISSO É A MAIS PURA VERDADE. E POR OUTRO LADO GOSTARIA DE MENCIONAR TAMBÉM QUE GOSTO DA COLUNA DO PROFESSOR ÉLIO, ALÉM DE TER O PRAZER DE POD...

Leia mais
 
 
Jornal O Presente | Fone/Fax (45) 3254 - 1842 | Rua 7 de setembro, 1233 - Centro - Mal. Cândido Rondon - PR

Desenvolvido por Vetor Design