Dom João Carlos Seneme
“Mestre, onde moras? Vinde e vede”. E permaneceram com ele

No 2º Domingo do Tempo Comum, através do evangelista João, vamos acompanhar Jesus chamando os primeiros discípulos para segui-lo; é a primeira atividade pública de Jesus.

Tudo começa com o olhar de João Batista, ele vê Jesus passando e diz em alta voz alta: “Eis o Cordeiro de Deus”. A partir daí, dois dos seus discípulos passam a seguir Jesus. A pergunta de Jesus é decisiva: “Que procurais”? Dali nasce o convite: “Vinde e vede”. Não é somente um convite para aprender com Jesus intelectualmente, mas estar com ele, partilhar de sua vida, conhecer sua missão e tomar parte nela. A relação que se estabelece é mais forte do que mestre e discípulo. Os dois discípulos são convidados a participar da vida de Jesus e conhecer a relação que une Pai e Filho no mesmo projeto de salvação da humanidade. Essa experiência direta convence-os a ficar com Jesus (“ficaram com Ele nesse dia”). Nasce, assim, a comunidade do Messias, a comunidade da nova aliança. É a comunidade daqueles que reconhecem Jesus que passa, procuram nele a verdadeira vida e a verdadeira liberdade, identificam-se com Ele, aceitam segui-lo no seu caminho de amor e de entrega, estão dispostos a uma vida de total comunhão com Ele. Este primeiro passo muda radicalmente a vida destes homens simples, pescadores, que já se encontravam numa atitude de busca e conversão: eles eram discípulos de João Batista.

A palavra do papa Francisco ecoa forte neste instante: “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Evangelii Gaudium 1).

Voltando ao nosso Evangelho, a partir deste momento, os dois discípulos tornam-se testemunhas. É o último passo deste “caminho vocacional”: quem encontra Jesus e experimenta a comunhão com Ele, não pode deixar de se tornar testemunha da sua mensagem e da sua proposta libertadora. Trata-se de uma experiência tão marcante que transborda os limites estreitos do próprio eu e se torna anúncio libertador para os irmãos. O encontro com Jesus, se é verdadeiro, conduz sempre a uma dinâmica de repartir com os outros o que foi experimentado anteriormente, tornam-se discípulos missionários.

A história da vocação de André e do outro discípulo (despertados por João Baptista para a presença do Messias) mostra, ainda, a importância do papel dos irmãos da nossa comunidade na nossa própria descoberta de Jesus. A comunidade nos ajuda a tomar consciência desse Jesus que passa e nos aponta o caminho do seguimento. Os desafios de Deus ecoam, tantas vezes, na nossa vida através dos irmãos que nos rodeiam, das suas indicações, da partilha que eles fazem conosco e que dispõe o nosso coração para reconhecer Jesus e para segui-lo. É na escuta dos nossos irmãos e com os olhos atentos aos acontecimentos que nos cercam que encontramos, tantas vezes, as propostas que o próprio Deus nos apresenta. Isto revela quanto precisamos uns dos outros para reconhecer Jesus que passa e faz um convite. A coragem de responder e segui-lo está em cada um de nós.

O encontro com Jesus é decisivo e pode acontecer a qualquer instante. Depois deste encontro nunca mais seremos os mesmos, sentiremos cada vez o desejo de viver em comunidade, partilhar com os outros o que está acontecendo conosco, a fim de que também eles possam encontrar o verdadeiro sentido para a sua existência. “Encontramos o Messias” deve ser o anúncio jubiloso de quem fez uma verdadeira experiência de vida nova e verdadeira e anseia por levar os irmãos a uma descoberta semelhante. Daí nasce, para alguns, o desejo de viver uma vida exclusiva de dedicação a Deus e aos irmãos como padre, religioso, religiosa. Quem ouvir a voz libertadora de Jesus deve segui-lo, ou correrá o risco de ser infeliz para sempre.

 

 

* O autor é bispo da Diocese de Toledo

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