A vez de Dirceu
Atualizado em: 13/06/2012 - 00:00
O ex-presidente Lula é um craque da política que a história vai colocar no alto do pódio. As épocas eram outras, difícil comparar, mas Getúlio e Juscelino Kubitscheck também foram astros dessa arte. Fica, então, a critério de cada um apontar, se necessário for, a figura mais próxima e com mais carisma perante o povo brasileiro. Craque, sim Lula é, mas também tem seu dia de azar, daqueles em que o popular diz que não deveria sair de casa. Nada mais impróprio do que às vésperas de um julgamento como o mensalão é o ex-presidente visitar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), alguns dos quais por ele nomeados. Não é o caso de Gilmar Mendes, nomeado por Fernando Henrique Cardoso, mas foi aí numa atrapalhada à qual se juntou o ex-ministro Nelson Jobim, que todos soubemos dos inconvenientes encontros.
Afora, já marcado no dia 1º de agosto para o início do julgamento, vem o ex-ministro José Dirceu pedir por um clamor das ruas em seu favor. Logo ele, o mais importante da relação dos mensaleiros, possivelmente o primeiro a ser julgado, se assim for determinado pelos ministros do Supremo. Ora, após anos menosprezar o possível resultado do julgamento, Dirceu apela para os estudantes da União Nacional dos Estudantes (UNE). Coincidentemente, revela-se que a UNE não é mais aquela: as verbas fruto de convênios com diversos organismos federais estariam sendo usadas até para a compra de bebidas. Dirceu quer uma claque na rua, a pressão sobre o STF vai continuar. No mínimo, a praça dos três poderes em Brasília vai estar tomada por partidários de Dirceu e de outros listados para serem julgados.
O povo na rua que José Dirceu quer é um perigo. Na rua já esteve o povo, mas por causas nobres. A manifestação em favor das eleições diretas, por exemplo. Ou a roupa preta contraditando o verde-amarelo que Fernando Collor queria. Agora, pressionar de várias formas, na surdina e no barulho, na provocação, os ministros do Supremo Tribunal Federal, ultrapassa todas as expectativas de uma esperança de julgamento normal. O mês de agosto estará tomado no STF, mas não tem lugar para que se aprecie o fato como uma “batalha política”. Líder inconteste do PT, só perdendo para Lula, Dirceu vinha jogando bem. Escorregou, como seu líder maior. Que ambos tirem lição desses últimos fatos e que aguardem a manifestação do Supremo. Afinal, muitos dos ministros foram nomeados por Lula. Confiança, por certo, em seus atos não deverá faltar.
Agosto, de tantas lembranças boas ou ruins, estará tomado. Mas não ao ponto de atrapalhar as campanhas políticas pelos Estados. Como em eleições não há empates, mas sim maneiras de evitá-los, é aguardá-las, trabalhar, como em todas, a partir do ex-presidente Lula. O próprio José Dirceu poderá ter condições de percorrer as ruas do país. Mas não as terá com manifestações apelativas que podem ser confundidas com pedidos de socorro após anos de confiança na sua absolvição, ou de sua inocência.
A União Nacional dos Estudantes já teve tempos melhores, causas mais abrangentes, dignificantes. Pode voltar a cuidar dos estudantes e do ensino de modo geral. Se entrar na de Dirceu, perde o pouco de admiração que vem do passado e se conserva na lembrança de muitos.
