COMO SACIAR A SEDE DO INFINITO?
Atualizado em: 05/05/2012 - 00:00
Refletir sobre a bondade divina, além de encorajar-nos em nossa vida, ajuda-nos a entender nossa própria fé cristã. Há uma passagem do evangelho muito interessante, narrada pelo Evangelista São João, no capítulo quarto, que é o diálogo de Jesus com a Samaritana.
Jesus está sentado à beira do poço de Jacó, célebre na história de Israel. Lá ele encontra uma pessoa, cujo nome é desconhecido, mas que, doravante, será identificada como “Samaritana”, habitante da Samaria. Dirigindo-se a ela, Jesus pede: “Dá-me de beber”. Que tipo de sede Jesus tinha? Evidentemente que não era só a sede física. Ele tinha sede de lhe falar ao coração, para mudar-lhe a vida e, através daquela mulher, fazer com que o Evangelho fosse difundido em toda a região da Samaria. Os Apóstolos tinham saído para comprar provisões. Jesus está sentado. Sua postura significa que não tem pressa, pelo contrário, coloca-se disponível para um diálogo profundo e renovador, que ele inicia com o pedido: “Dá-me de beber”.
Jesus sabe que a Samaritana pode atender sua solicitação, pois vai recolher água do fundo do poço e encher o cântaro que, provavelmente, levará sobre a cabeça, conforme o costume. Ela, porém, estranha: “Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!”. Notemos que havia um desprezo mútuo entre judeus e samaritanos. Jesus, então, começa a aprofundar a conversa: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é aquele que te diz ‘Dá-me de beber’, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva... Se conhecesses o dom de Deus”.
Este é o primeiro ponto a destacar. Os dons de Deus são, a princípio, de ordem natural, a começar pelas nossas riquezas pessoais. Logo, conhecer o dom de Deus é uma atitude que começa por assumir as qualidades que ele nos concedeu. E todos as temos, embora de diferentes maneiras. A Samaritana certamente possuía a riqueza feminina da sensibilidade, do raciocínio intuitivo, do amor atuante no cuidado doméstico. Os dons de Deus se manifestam, também, na própria criação, que está ao nosso dispor, simbolizada pela água que a Samaritana viera buscar. Deus continua agindo no sustento dessa obra, na conservação da vida e da ordem universal. De fato, contemplando tudo o que está à nossa disposição, há os que se limitam a reconhecer a dimensão da ordem natural. Mas o dom de Deus vai além, atingindo o mais profundo do ser de cada um de nós.
Jesus desejava que a samaritana acolhesse o pleno significado daquela água em sua vida. Ele continua: “E se conhecesses Aquele que te fala e te pede água”... Aqui Jesus começa, pouco a pouco, a revelar-se. Muito mais do que um profeta, ele é o enviado do Pai: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho único” (Jo 3,16). Eis o significado da encarnação para a história humana e para a história da salvação. Ao chegar o sacrifício extremo do Filho, São Paulo diz: “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). “Ele nos amou primeiro”, diz São João (1Jo 4,19). Não foi nossa a iniciativa. Ele nos amou primeiro e, com amor infinito, pois quer associar-nos à sua felicidade eterna, quando chegar o termo da nossa caminhada terrestre. Ninguém conseguiria amar a Deus se ele, primeiramente, não tivesse vindo a nós, dando-nos a possibilidade de retribuir esse amor. Aliás, nós nem conseguiríamos falar com Deus, se ele não nos capacitasse para isso. Adentramos, assim, ao mundo sobrenatural da fé e da esperança: “Se conhecesses quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva”.
O ser humano não consegue saciar aqui sua sede do infinito. Ele peregrina para a eternidade: “Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13,14). Somente o próprio autor da vida é que pode saciar essa sede, pois nada há no mundo criado capaz de preencher a nossa ânsia de amor verdadeiro: “Amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor” (Jr 31 ,3). Como Deus é bom, pois nos quer eternamente a seu lado!
