Os deslizes da vida pública

Atualizado em: 03/05/2012 - 00:00

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Quem nunca “meteu os pés pelas mãos”, como dizem no dito popular, ao falar sobre algum assunto ou fazer uma declaração?
Vemos muito disso no dia a dia, entre pessoas comuns, sem repercussão alguma. No entanto, quando um pronunciamento neste sentido envolve uma pessoa pública, o fato ganha outra dimensão.
Foi o que aconteceu com o governador Beto Richa, na semana passada, durante uma entrevista à rádio CBN. Ele declarou que acha positivo que os policiais militares do Estado não tenham diploma de curso superior porque gente formada normalmente é muito insubordinada. “Outra questão é de insubordinação também, uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior, uma patente maior”, disse ele, na ocasião.
Desde então, o assunto teve grande repercussão negativa, principalmente entre a classe policial. A Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares Ativos Inativos e Pensionistas chegou a emitir nota de repúdio à manifestação de Beto Richa, considerando-a inadmissível para um chefe do Poder Executivo, que deve zelar pelo Estado buscando avanços e melhorias. “Sua declaração causou indignação em toda a sociedade. É vergonhoso perceber que o nosso governador incentiva a ignorância, ao invés de apoiar o aprimoramento da polícia paranaense”, diz parte da nota.
A polêmica na verdade envolve posições contrárias. As associações que representam os policiais militares querem que o governo passe a exigir diploma dos que entram na corporação. Já o governo acha desnecessário.
Até aí tudo bem, entretanto, Richa poderia, sem nenhum problema, ter defendido que não é preciso diploma para ser policial, mas com outros argumentos. Dizendo o que disse, acabou se complicando com muita gente, inclusive com seus eleitores. Até porque, a função do Estado é estimular o estudo, e não o contrário.
Percebendo a tamanha gafe que cometeu, o governador chegou a pedir desculpas pela declaração, admitindo ter cometido “o primeiro grande deslize” de sua vida pública.
Ao menos teve humildade suficiente para reconhecer um erro. Com certeza, se pudesse voltar atrás, jamais teria dito o que disse.
Mesmo tentando amenizar o ocorrido, muita gente não vai considerar a segunda declaração de Richa, de que a manifestação que fez não é o que defende e que aquilo que disse não é o que ele pensa.
Eis os melindres da vida púbica. Por isso, o político precisa estar “antenado” 24 horas por dia sobre o que diz e o que pretende dizer. Um pronunciamento falho pode ser crucial. Tem muito peso negativamente.
Beto Richa não foi o primeiro e nem será o último a dizer uma frase infeliz. O ex-governador do Paraná, Roberto Requião, também teve muitas pérolas famosas. Entre elas, para relembrar, a que se manifestou sobre as pas-seatas gay: “A ação do governo não é só em defesa do interesse público. É da saúde da mulher também. Embora hoje o câncer de mama seja uma doença masculina também. Deve ser consequência dessas passeatas gay”.
Para não causar espanto, o cidadão público precisa se conter em suas declarações. Ao menos é isso que prega a “cartilha”. Mesmo que não concorde com um tema ou tenha uma opinião divergente da maioria, se deixar escapar algo impensado diante de um microfone, poderá estar arranhando a sua imagem. Ou seja, nestes casos, nem sempre manifestar o que pensa diante do público é o adequado. Em últimos casos, é até possível abordar temas polêmicos, mas com todo o cuidado que ele merece. Do contrário, a rejeição é inevitável e os índices de popularidade podem cair.
Por outro lado, é nestes deslizes, muitas vezes, que o povo consegue captar o que de fato alguns políticos pensam sobre um determinado assunto. Porque, na maioria das vezes, eles seguem a “cartilha” e evitam pronunciamentos polêmicos, que fogem do ideal para uma pessoa pública.

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