MUITO ALÉM DO PERREXIL

Atualizado em: 20/01/2012 - 00:00

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A passagem pelo Perrexil foi a maior aventura com o meu pai quando eu era criança. Eu deveria ter uns cinco anos. Numa madrugada de verão, meu pai me acordou. Eu já estava ansioso há uns dias. Foi a primeira vez que acordei ainda escuro. Aquilo que mais tarde eu aprenderia que era a Via Láctea, me impressionou bastante. Meu pai apontou para uma estrela e falou: “aquela é a Estrela da Manhã”.

Preparados, meu pai colocou um travesseiro sobre o tanque de gasolina da moto, onde me acomodei. Já clareava quando chegamos a Imaruí, porém, nosso destino era Laguna, cidade litorânea no Sul do Estado de Santa Catarina. O percurso de aproximadamente 50 quilômetros era obstaculizado pela Lagoa de Imaruí, e para não contorná-la era preciso atravessar de canoa pelo Estreito do Perrexil (o nome é decorrente de planta aquática de ambiente salgado). Moto na canoa, atravessamos.

Cumprido o compromisso em Laguna, iniciamos o retorno. Na passagem de volta a coisa se complicou. Entrou o vento Sul e as águas se encresparam. Muita água na canoa, molhados, eu me divertia muito. Meu pai me confidenciou depois que temia que pudéssemos naufragar, porém, conseguimos nos safar.

Durante mais de 50 anos, por diversas vezes lembramos juntos a aventura. Com o agravamento de sua doença e perda progressiva da memória, meu pai ainda lembrava algumas coisas quando se insistia um pouco. Na madrugada do dia 04 de janeiro, depois de juntamente com a minha mãe ter lhe auxiliado no banheiro, o colocamos novamente na cama. Considerei com ele se no amanhecer, não poderíamos ir para Laguna. Ele completou: “pelo Perrexil”. Dei boa noite e ele me respondeu normalmente. Dali para frente ele não pronunciaria mais muitas palavras audíveis.

No dia 06 de janeiro, com o agravamento da situação, chamei meus irmãos. Na noite daquele dia, pedi que minha prima Alice ficasse em vigília na primeira parte da noite. Já na madrugada, do lado de fora do quarto onde estava meu pai, vi a Via Láctea. Lembrei dos preparativos há mais de meio século para passar pelo Perrexil.

No dia 10 de janeiro, aos 84 anos dez meses e 25 dias, rodeado por todos os filhos, alguns netos e amigos, meu amigo de fé, meu irmão camarada, fez a sua derradeira travessia. Desta vez para muito além do Perrexil. No dia 11, ao som de violino e violão executados pelos netos, o corpo de meu pai foi conduzido por seus filhos, netos e amigos a um lugar onde todos nós em breve estaremos. Até, paizinho.     

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