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Época de recuperação para os suinocultores, mas de preocupação para os produtores de grãos

O Presente

20/04/2017 às 11:30 - Atualizado em 20/04/2017 às 12:05

 

Mirely Weirich/OP

 

A balança da cadeia produtiva ainda está distante do equilíbrio. Se no ano passado os produtores de grãos comemoravam a rentabilidade conquistada com a alta no preço do milho, neste ano os agricultores sentem na pele a mesma incerteza da margem de lucro que os suinocultores viveram em 2016. As cotações das commodities agrícolas encerraram os últimos 30 dias amargando queda no mercado internacional, incluindo as cotações de soja e milho, produtos que têm impacto direto na ração animal e indireto no preço dos alimentos.

Em abril do ano passado, a saca de milho chegou ao patamar histórico de R$ 45, e tanto suinocultores quanto avicultores tiveram dificuldade em manter alta produtividade sem repassar o custo de produção para o consumidor final - fazendo com que apenas alguns produtores independentes do Estado, que em 2016 representava 23% dos suinocultores paranaenses, com um esforço significativo conseguissem se manter na atividade. “Hoje a soja está cotada na casa dos R$ 56 a saca e o milho a R$ 21, um cenário muito diferente do ano passado, quando fechamos contratos a R$ 80, até R$ 83 a saca de soja e o milho a R$ 30, chegando a R$ 40 na colheita”, aponta o engenheiro agrônomo da Agrícola Horizonte, Cristiano da Cunha.

 

Sem margem de lucro

A queda de preço dos principais grãos utilizados na alimentação dos animais chega aos 40%. Na avaliação do especialista, se em 2016 o agricultor conseguia pagar os insumos com uma produtividade média de 120 sacas de milho por alqueire, hoje colhendo 200 sacas talvez não seja possível alcançar qualquer margem de lucro. “Temos expectativa de produção de 230 a 240 sacas por alqueire, e ele vai gastar 200 sacas só com os insumos. Se colocarmos nessa conta outros custos como com maquinário, plantio, óleo diesel, funcionários, colheita e frete, tudo gira em torno de 250 a 260 sacas por alqueire”, aponta. Em suma, se o produtor de grãos vender o milho na casa dos R$ 20, a conta fecha no vermelho.

Cunha aponta que, no ano passado, o agricultor também adquiriu os insumos com o preço menor do que neste ano e consequentemente vendeu o milho com o preço muito bom. Já neste ano o cenário foi totalmente ao contrário. “Como o preço estava muito bom na colheita do ano passado, as multinacionais subiram os preços de fertilizantes, agroquímicos e principalmente de sementes, então o agricultor comprou o insumo mais caro, plantou com um custo alto e vai colher em um preço baixo”, avalia.

Por outro lado, de acordo com o vice-presidente administrativo da Associação Paranaense de Suinocultores (APS) e presidente da Associação Regional dos Suinocultores do Oeste (Assuinoeste), Gilberto Minosso, mesmo com a queda no preço das commodities, a cadeia produtiva de suínos ainda não tem garantias de que haverá grandes ganhos na atividade. “O produtor enfrenta a especulação existente no meio da cadeia e a falta de garantia de preços mínimos na suinocultura, que ainda é uma luta histórica. Mesmo com a queda de preço e com mais oferta de milho e soja no mercado interno e com o câmbio sob controle, o suinocultor não consegue visualizar uma rentabilidade maior e nem consolidar o avanço na sua atividade”, pondera.

 

Queda brusca

Luiz Hollmann, que juntamente com o cunhado cultiva pouco mais de 30 alqueires na Linha Guavirá, interior de Marechal Cândido Rondon, tem expectativa de produtividade da safrinha de pelo menos 250 sacas por alqueire. O resultado, porém, não deve garantir a lucratividade. “Isso vai só cobrir o custo de produção, se cobrir”, lamenta.

Com a vida dedicada ao trabalho no campo, Hollmann avalia que já houve momentos piores do que o atual para o produtor de grãos. O que chama a atenção, no entanto, é a variação brusca do ano passado para este. “Eu não me lembro de ter sentido uma mudança tão rápida, especialmente porque não eram essas as previsões. O que se noticiava era que não tinha milho, havia frango morrendo de fome e a safrinha, ao que tudo indicava, não supriria a demanda por muito tempo, mas aconteceu o contrário”, aponta. “Hoje dizem que o milho está sobrando e há preocupações até mesmo acerca da capacidade de estocagem do produto”, complementa.

A previsão do agricultor, infelizmente, não é positiva. Para ele, por enquanto o cenário deve continuar ruim, tendo em vista as informações que apontam o alto estoque de milho e o novo recorde de safra. “Eu não consigo entender como esse cenário se recompôs tão rápido. Questiono-me sobre o que vai acontecer se essa safra for boa, a safra de verão e a safrinha do ano que vem também. O que vamos fazer com tanto produto?”, pergunta.

De acordo com o engenheiro agrônomo, uma série de fatores compôs o cenário atual. Além da queda do dólar, a baixa taxa de exportação fez com que sobrasse produto no mercado interno, por isso, as empresas consumidoras de milho e farelo de soja - que são os dois principais componentes da ração animal -, por possuírem estoque, param as compras. “Também há questionamentos sobre o estoque de passagem. Não se sabe se o que é colocado nos relatórios é o que existe no estoque físico, mas quando se olham os relatórios o estoque de passagem está alto, o que também baixa o preço”, menciona Cunha.

No ano passado, o produtor que não é integrado pagou o preço de ter que comprar milho no mercado a R$ 45 a saca para alimentar os suínos e o gado, um cenário totalmente reverso agora. O engenheiro agrônomo considera que o momento novamente não é bom para ninguém. “O ideal é ter um meio termo onde o produtor de grãos fosse remunerado e o pecuarista também tivesse boa margem de lucro”, afirma, apontando que um preço estável, para o milho seria a saca variando entre R$ 28 e R$ 30 e a soja a R$ 70 - mesmo preço considerado justo para as atividades na opinião de Hollmann.

 

Estoque cheio

Cunha informa que existem muitos agricultores com produto estocado no aguardo de melhores preços. “Por estarmos em uma região com pequenos produtores e a maioria diversificar a atividade, não dependendo exclusivamente dos grãos para viver, quem precisava na época quitar seus compromissos acabou vendendo, mas aquele que pensava em fazer reserva está com o produto em depósito nas cerealistas aguardando um preço melhor”, explica.

Na avaliação dele, quem está vendendo milho hoje fica no vermelho, pois está abaixo do seu custo de produção. “Já a soja, por termos produtividades muito boas na última safra, talvez esteja vendendo no custo, mas sem lucro nenhum”, pondera.

 

Fim do sufoco?

Na Linha Campo Salles, no distrito de Margarida, Cesar Petri trabalha um pouco mais aliviado. Com um plantel de 680 matrizes para a produção de leitões, apesar de ser integrado, ele compra diretamente a ração, matrizes e medicamentos, por isso o preço dos produtos agrícolas reflete, e muito, na atividade. “O custo da ração caiu 40%, que foi aproximadamente o percentual de queda do milho e da soja. No ano passado, o custo da ração era 70% de todo o custo da granja, e hoje é menos de 50%”, compara, apontando que hoje cerca de 20% a 25% da receita bruta sobra como lucratividade para o produtor, sendo que nos piores momentos de 2016 o percentual era de 5%.

Por ter uma produtividade média de 30 leitões por matriz no ano, enquanto a média é de 26 animais, ele destaca que não chegou a trabalhar no vermelho em nenhum mês do ano passado, contudo, foi um ano de margem muito estreita para o suinocultor, com a maioria no prejuízo. “Como estamos no sistema integrado, a empresa mantém o preço um pouco melhor. No pico de preço do suíno não recebemos o que os produtores que não são integrados recebem, mas em anos como 2016 a integradora nos dá uma segurança maior”, compara.

Petri também cultiva a lavoura e sabe que o momento positivo para os suínos acaba travando a comercialização dos cereais. “Com esse preço, seria preciso colher no mínimo 200 sacas por alqueire, o que pode ser até atingido, mas depende muito da variação climática”, comenta, ressaltando que o preço bom para garantir margem de lucro para as duas atividades e estabelecer um planejamento em longo prazo seria o milho a R$ 30 e a soja a R$ 70.

Para Minosso, o suinocultor brasileiro ainda se ressente da crise provocada pela combinação do preço alto, da falta de milho no mercado interno no ano passado e a baixa de preço do suíno vivo, sendo que os efeitos ainda podem ser percebidos nas granjas, com a redução dos plantéis e no peso do animal vendido para o abate. “O produtor também sofre com as oscilações do próprio mercado de suínos, com altos e baixos na demanda por preço de animais e com a redução do consumo no mercado interno em razão da crise econômica”, informa.

Ele diz que com o preço menor nos insumos, especialmente no milho, é preciso atingir uma lucratividade que atenda ao menos as necessidades básicas do produtor em uma relação entre o custo e o preço de venda do animal de forma satisfatória no mercado independente, já que aos integrados a aprovação da lei da integração ainda não permitiu que seja estabelecida uma nova rentabilidade na relação com as integradoras. “A relação atual do preço do milho em comparação ao preço do quilo do suíno traz certa vantagem, mas não há garantias de que essa situação menos desfavorável persista por muito tempo devido às oscilações do mercado”, completa.

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