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Marechal Rondon em alerta para os casos de violência contra crianças e adolescentes

 

Divulgação/Imagem ilustrativa
Data alerta para os casos de violência física, sexual e negligência contra crianças e adolescentes, que em Marechal Cândido Rondon já somam 60 casos atendidos no Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos

Carícias incômodas e que machucam, exibição de órgãos sexuais, apresentação de material pornográfico, receber dinheiro ou presentes em troca de atos sexuais... Essas são apenas algumas das atitudes que ainda são praticadas com crianças e adolescentes, violando seus direitos e deixando marcas que serão carregadas pelo resto de suas vidas.

Atualmente, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Marechal Cândido Rondon atende 60 crianças e adolescentes por meio do Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (Paefi). Somente neste ano foram registrados 15 novos casos de violação de direitos de crianças e de adolescentes, que envolvem ocorrências de violência física e psicológica, abuso sexual, exploração sexual, negligência ou abandono e situação de trabalho infantil. “Dentre esses atendimentos, o que tem maior incidência é o abuso sexual, que corresponde não somente ao ato sexual, mas também a passar a mão nas partes íntimas, carícias, mostrar imagens na internet. Sempre que tem uma pessoa maior de idade que faz isso com crianças é considerado abuso sexual”, explica a psicóloga do Creas, Angela Linécio.

A campanha “Faça Bonito”, que segue no município até quarta-feira (24), faz referência ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Contra Crianças e Adolescentes, celebrado ontem (18). Entretanto, o intuito é que as orientações repassadas às crianças, aos adolescentes e à comunidade escolar desde o início desde mês não sejam esquecidas com a passagem da data. “Não queremos que pare no 18 de maio. Pedimos para que os professores tragam esse tema para a sala de aula durante o ano porque essa é a forma de prevenir e educar os jovens, até que todas essas informações sejam absorvidas por eles”, enfatiza Angela.

Na campanha realizada nas escolas rondonenses a equipe do Creas enfatiza para que as crianças que sofreram algum tipo de violência busquem uma pessoa de confiança para relatar o acontecido. “Quando algum abraço, alguma forma de demonstrar carinho é diferente, quando ela se sente incomodada, é preciso avisar alguém de confiança, seja o professor, a mãe, o pai, quando não for nenhuma dessas pessoas que está praticando a violência”, orienta a psicóloga.

Segundo ela, geralmente o agressor é pessoa da família ou família extensa, com algum grau de parentesco com a criança, ou pessoas próximas à família, como amigos dos pais e vizinhos, pessoas das quais os familiares menos suspeitam. “E é por eles não suspeitarem e algumas vezes até não acreditarem quando a criança conta que elas têm receito de buscar ajuda. Elas têm medo de que a sua pessoa de confiança não vá acreditar, seja ela a mãe ou outro membro da família”, declara.

Muitas vezes, diz Angela, a criança se cala durante anos e somente depois de adulta os problemas recorrentes deste trauma que sofreu quando criança vêm à tona.

 

Denúncia

Quando são registrados casos de violência contra crianças e adolescentes, independente da natureza, a primeira instância a prestar atendimento à vítima é o Conselho Tutelar, que vai ao encontro da criança para apurar os fatos. “A criança ou o adolescente vai explicar quem praticou o ato de violência ou negligência e dependendo da situação somos obrigados a conduzi-la até a delegacia, fazer um boletim de ocorrência e levá-la para realizar um exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML)”, destaca a presidente do Conselho Tutelar, Ilse Grosklass.

A partir do caso concreto, ou seja, quando a criança teve seu direito violado, ela e sua família são encaminhadas para o Creas para o atendimento psicossocial. “Na maioria das situações de violação de direitos de crianças e adolescentes, quando observamos o entorno dessa criança, vemos que o pai e a mãe ou seus tutores precisam de mais atendimento do que a própria criança. Os pais precisam de um ambiente eficiente para cuidar bem dos filhos e muitas vezes não têm estrutura e precisam de orientações e encaminhamentos. Já houve casos de internamento psiquiátrico dos pais enquanto os filhos ficam no atendimento da rede de proteção”, aponta.

Há casos em que o Conselho Tutelar pode resolver as situações sem necessidade de encaminhamento para o Creas, mas tudo depende de cada caso. “Se os pais são conscientes do que fizeram, nós conversamos com eles e, mediante termo de advertência, orientamos e conscientizamos sobre as consequências que podem advir caso se repitam tais situações. Para os pais que são conscientes conseguimos resolver as situações aqui mesmo no Conselho Tutelar”, diz Ilse.

Por outro lado, há atendimentos que chegam à esfera judicial, como quando o direito da criança é violado por um pai ou mãe, por exemplo, e é preciso afastar a criança do agressor. “Nós fazemos a mediação com a Justiça, relatando o atendimento e eles emitem a medida protetiva da criança e a pessoa é afastada da família”, menciona.

Nos casos onde ocorre a alienação parental, quando há interferência na formação psicológica da criança ou adolescente, promovida ou induzida por um dos genitores, o Conselho Tutelar também precisa atuar de forma imparcial em prol do bem-estar da criança. “Geralmente ocorre em casos em que pai e mãe são separados e falam muito mal um do outro, então quando não vemos resultado no diálogo, recorremos ao Ministério Público, que toma as providencias cabíveis”, assinala a conselheira tutelar.

 

Acompanhamento

No Creas ocorrem os atendimentos pscicossociais, a partir dos quais as crianças e adolescentes, acompanhados por membros de suas famílias, são acolhidos, ouvidos e orientados por uma psicóloga e por uma assistente social. “Nós não fazemos terapia, mas trabalhamos por um período questões referentes à violência. Com relação a traumas e sequelas oriundas disso, quando identificadas, nós encaminhamos para o setor da saúde, que é a Unidade de Saúde 24 Horas, que conta com profissionais para fazer a psicoterapia”, destaca Angela.

Se o caso atendido tiver alguma relação com saúde mental ou uso de substâncias psicoativas, também é feito o encaminhamento ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde há acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

 

Fortalecer o diálogo

Apesar de alguns atendimentos serem individualizados, a assistente social Rosilene Figur destaca que assim que chega uma criança ou adolescente para o atendimento, a família logo é envolvida. “Chamamos as pessoas que sabemos que não foram os abusadores. Por exemplo, se foi o pai, tentamos aproximar a mãe, irmão, um avô quem for necessário”, expõe.

O papel da família, complementa Angela, é tirar a criança da situação de risco e fazer com que ela sinta-se protegida, tanto é que os próprios familiares podem buscar a Polícia Civil para realizar o boletim de ocorrência, que encaminhará ao IML quando necessário, e, depois do fato confirmado, encaminhará para o atendimento no Creas.

Rosilene lembra que é de extrema importância que as famílias estabeleçam uma relação de diálogo, possibilitando que a criança possa contar com o apoio dos familiares tanto quando aconteçam casos de violência, quando após o acontecimento. “Outra situação é a atenção dos pais, das pessoas que cuidam da criança, para perceber algo que ela pode vir a apresentar”, salienta a assistente social. “A violência física, psicológica e a negligência são tão prejudiciais para o desenvolvimento da criança quanto a violência sexual. Todas as formas de violência são prejudiciais e precisam de orientação”, enfatiza.

 

Atentos aos sinais

Conforme a psicóloga, as crianças que são vítimas de algum tipo de violência mudam o comportamento. Se brincavam, deixam de brincar. Se gostavam de passear, deixam de passear. “Elas começam a se retrair, se fechar no mundo delas. Tanto os professores quanto os pais quando começam a perceber que a criança está agindo de forma diferente do que estavam acostumados, ou demais ou de menos, eles precisam investigar”, aponta Angela.

De acordo com ela, esse mesmo comportamento é atribuído para o uso de drogas. “Mudança de comportamento e baixo rendimento escolar podem ser sinais de uma violência sexual ou uso de substância. São sinais para que educadores e pais dialoguem, procurem saber o que está acontecendo e coloquem-se à disposição”, reafirma.