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"Não precisa entender, só respeitar", pede transexual rondonense

Apesar do conservadorismo e do preconceito ainda estarem presentes na região, iniciativas como a Parada Pela Diversidade Social, que acontece neste fim de semana em Cascavel, mostram que a sociedade começa a dar sinais de entendimento e respeito à comunidade LGBT
Monike Schwab, que se identifica como pansexual: “Você pode não aceitar a vida que eu vivo ou quem eu sou, mas você tem que me respeitar” (Foto: Mirely Weirich/OP)

Apesar de já terem se passado tantos anos, Monike ainda tem a lembrança clara de quando tinha cinco anos e encontrou um esmalte vermelho de sua mãe e pintou uma de suas unhas. Afoita, a babá correu até a vizinha para emprestar um removedor de esmaltes para evitar que os pais vissem a criança com a unha pintada.

Uma menina de cinco anos com a unha pintada de vermelho não é problema, afinal, é uma menina. Mas um menino de cinco anos, é. “Meu pai era uma pessoa boa, mas para ele colocar um elástico no pulso já era coisa de mariquinha”, lembra Monike.

A história de Monike Schwab não é simples, nem fácil de ser compreendida por todos, mas sem dúvida inspiradora. Nascida do sexo biológico masculino, a identidade de gênero, ou seja, o gênero com o qual ela se identifica, é o feminino. “Meu pai faleceu quando eu tinha nove anos e por muito tempo eu me espelhei nele. Mas depois que ele faleceu, essa questão da identidade de gênero foi bastante podada, porque sendo filha única as pessoas me falavam que agora eu era o homem da casa, que eu tinha que cuidar da minha mãe”, conta.

Mesmo se travestindo a portas fechadas na época, até então tanto ela quanto sua mãe achavam que Monike era homossexual, apesar de ela nunca ter mantido nenhum tipo de relações com homens nem com mulheres. “Minha mãe até pediu para que uma amiga fizesse investidas em mim e eu correspondi, ou seja, eu gostava de mulher, mas eu ainda não conseguia entender totalmente essa situação e eu tinha receio de buscar ajuda profissional porque fui criada em uma sociedade totalmente conservadora, machista e patriarcal, tanto é que eu chorava quando minha mãe me pegava travestida e jurava que nunca mais iria fazer aquilo, mas dali duas três semanas eu fazia de novo. Era algo mais forte do que eu e no fundo eu achava errado, uma coisa de outro mundo”, relembra.

 

Relacionamentos

Aos 16 anos, Monike teve seu primeiro relacionamento com uma mulher, pela qual se apaixonou. “Mas aquele desejo e a necessidade de me sentir mulher continuaram, e depois de quatro anos mais ou menos nós nos separamos porque o relacionamento não deu certo”, confidencia.

Depois de um tempo, ela conheceu uma nova paixão: Jake, sua companheira há 12 anos. “Quando percebei que a coisa estava séria, mandei um e-mail para ela contando toda minha história sem esconder nada e disse que se ela não quisesse ficar comigo, eu entenderia”, diz. “Ela aceitou ficar comigo, porém, na cabeça dela, isso era algo passageiro, que talvez eu ainda não tivesse encontrado a mulher certa”, complementa.

Quando foram morar juntas, Monike conta que a necessidade dela se sentir mulher voltou. “Eu contei para a Jake e levou cerca de dois anos para ela me aceitar, me entender e hoje eu digo que se não fosse por ela eu não teria ‘saído do armário’, conseguido me aceitar, me entender, estaria sofrendo”, revela.

No coração de Monike, porém, ainda faltava uma peça: o entendimento de sua mãe sobre quem ela era. Ela conta que foi em 2008 que conseguiu - por meio da apresentação de um documentário sobre mudança de gênero - começar a ter uma relação de mãe e filha. “Na época eu não conseguia me expressar da forma como me expresso hoje e depois que ela assistiu aquele documentário, nós conversamos e passou a me aceitar e respeitar”, constata Monike.

 

Transformação

Apesar de estar com os relacionamentos resolvidos, Monike diz que um detalhe importante para ela seria o trabalho, pois, de acordo com ela, na forma masculina conseguir emprego já era uma dificuldade. “Se eu me assumisse, de vez que não conseguiria”, avalia.

Contudo, em setembro de 2008 ela foi chamada em um concurso público da Prefeitura de Marechal Cândido Rondon, o que trouxe tranquilidade para a questão profissional de Monike. “Agora faltava mais aceitação pessoal, amadurecer essa ideia de ser mulher. Furar a orelha, por exemplo, foi quase um dilema. Fiz quando tirei férias e voltei para o trabalho um pouco transformada, com dois furos em cada orelha e o cabelo mais comprido”, lembra.

Foi justamente durante um período em que tirou férias que Monike saiu pela primeira vez travestida na rua, com o apoio de uma travesti que trabalhava como arrumadeira na pousada em que ela estava hospedada. “Começamos a amadurecer essa ideia porque a Monike não conseguia mais ficar trancada. Eu precisava me sentir livre e a Jake percebia isso também”, evidencia.

No final de 2010, ela começou a sair na rua mais feminina, com roupas femininas e salto alto. Todavia, foi também nesta época que começaram alguns problemas no setor em que trabalhava. “Me pressionaram tanto que eu pedi para sair e em 2011 eu vim para a Escola de Artes, que foi a melhor coisa que fizeram para a minha vida. Eu nunca tive problema com ninguém que trabalhou comigo, porque nos respeitamos como pessoas”, enaltece.

 

Monike Schwab

Até 1º de junho deste ano, a Monike não existia legalmente, mas fazer a mudança de nome era um desejo antigo da rondonense. “Tive até um chefe que brigou por mim para eu conseguir o crachá com o meu nome e ele conseguiu há alguns anos, porque antes da mudança do nome, haviam situações em que não respeitavam meu nome social”, explica.

A oportunidade apareceu, segundo ela, com o projeto Justiça no Bairro Sesc Cidadão, ocorrido em Marechal Rondon em junho deste ano. “Pesquisei sobre vários casos de mudança de nome e gênero que tinham acontecido positivamente por meio deste projeto e levantei os documentos necessários, dei meu depoimento, mais duas testemunhas e a minha mãe e eles deram o parecer favorável”, relembra. “Apesar de ter sido questão de 24 horas, foi uma angústia bem grande. Pelo que sei foi um dos processos mais rápidos do Brasil, e ocorreu tudo com muita tranquilidade, com muito respeito à dignidade da pessoa humana”, garante.

Monike comenta que muitas pessoas dizem que por ela não ter feito a operação de redesignação sexual, ela não é mulher. Mas agora, com sua certidão de nascimento em mãos, ela afirma: “A Justiça está dizendo que eu sou do sexo feminino. O sexo biológico não importa mais, o que importa é como eu me vejo”.

 

Carência

Monike avalia que pela necessidade de apoio profissional, tanto da área de psicologia, psiquiatria quanto endocrinologia, em âmbito regional, há uma carência de especialistas da área da saúde aptos a prestar atendimento para pessoas que passam pelo mesmo processo de descoberta, aceitação e transformação que ela passou. “Dos psicólogos que eu busquei, por exemplo, nenhum entendia nada sobre gênero. Não sabiam diferenciar gênero de sexualidade. Eu levava materiais para a pessoa entender, ou seja, estava ensinando e ainda pagava. Eu saia péssima das sessões, por isso acabei desistindo”, menciona.

Na área de endocrinologia, já que Monike utiliza hormônios há alguns anos, ela menciona que a carência também é significativa. “Me consultei com um profissional em Toledo que me despiu e me apalpou inteira e depois que me vesti ele disse que não sabia me tratar”, cita. “Alguns especialistas mesmo me afirmaram que há essa carência para atender essa demanda na região”, complementa.

Monike explica que hoje se hormoniza com cautela apenas para evitar a volta de pelos, já que realizou sessões de lazer. “Não tenho mais 15 anos para fazer mudanças radicais. Tomei bastante hormônio há um tempo para poder ter pele e conseguir colocar o silicone e agora só venho mantendo”, pontua.

 

Envolvimento

A percepção que Monike sentiu na pele, porém, pode estar perto de se transformar, já que alguns profissionais hoje buscam caminhar junto da comunidade LGBT para, muito além de esclarecer e orientar no momento de descoberta e aceitação, poder estar junto, não criminalizar e não excluí-los da sociedade. “O papel do psicólogo para alguém que está nesse processo é bastante importante porque ainda se tem a ideia de que isso é uma escolha, de que a pessoa em algum momento da vida dela fez essa opção, mas não é, é um entendimento de si mesmo”, destaca a conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), Elisa Mara Ribeiro da Silva.

Além de o profissional ser importante para que a pessoa se compreenda tanto no nível emocional quanto sexual, o apoio do psicólogo também se estende à família, que, muitas vezes, sente-se perdida e com um sentimento de culpa. “Algumas ainda se questionam, por exemplo, ‘aonde foi que eu errei’, mas não é um erro, é uma condição, um jeito de ser de cada um”, explica Elisa. “A participação do psicólogo também é importante no ponto de vista da aceitação do meio social, para que a sociedade como um todo também entenda o que isso significa, que é o ser humano naquilo que ele se entende como ser”, complementa.

Durante o mês de agosto, o CRP-PR realiza em todo o Estado a campanha “Psicologia é com psicólogo”, para ressaltar a importância da profissão para a sociedade. A iniciativa é organizada em comemoração ao Dia do Psicólogo, celebrado no domingo (27), e promove diversas ações como palestras, caminhadas e distribuição de materiais em todo o Paraná. Na região Oeste, a campanha está inserida na programação da 5ª Parada Pela Diversidade Social, que acontece neste fim de semana em Cascavel. “A diversidade social é fazer com que todos estejam incluídos, todas as raças e gêneros. Hoje falamos muito da questão de gênero e os psicólogos estão bastante envolvidos em processos como cirurgias e mudança de nome e gênero. Os psicólogos estão apoiando a comunidade LGBT para que possam esclarecer o tema, para que as pessoas compreendam que nós somos todos humanos acima de qualquer coisa, que todos temos direitos iguais previstos inclusive na constituição”, ressalta a psicóloga.

 

Sem problematizar

Ela enfatiza que qualquer pessoa, em qualquer momento de sua vida, quando sentir um conflito pessoal, deve buscar a ajuda de um profissional de Psicologia - seja por uma questão de sexualidade ou identidade. “Obviamente sabemos que é mais comum disso acontecer na adolescência, porque aspectos da adolescência vão estar vinculados à sexualidade, à identidade, o que eu quero, gosto. O desejo vai aflorar mais nesta época, mas não é que seja um problema específico”, menciona. “Acontece com qualquer pessoa quando se descobre com desejos independente de qual seja a sua identidade de gênero”, completa.

Encarar a terapia como o tratamento para um problema, diz a psicóloga, vai muito de como o profissional passa a situação para o paciente e sua família. “A pessoa que vai para a terapia e se sente acolhida e apoiada pelo profissional, ela mesma vai desmistificar isso perante as outras pessoas. Mas se o profissional trata a situação que ela traz como um problema a ser resolvido, também aponta o paciente como problemático, então ele vai querer esconder isso”, descreve.

Elisa pontua que ver o fato de ir ao psicólogo como um problema vai muito da relação de acolhimento, do reconhecimento da pessoa, de quem ela é, para que ela possa dizer “eu faço terapia porque é uma coisa legal e me faz bem” e não “porque eu tenho problema”. “Nós somos pessoas que nos questionamos, temos dificuldades de tomar determinadas decisões e queremos conversar com outras pessoas e um familiar não vai poder orientar adequadamente”, destaca. “O papel do psicólogo não é achar culpados para situações que se estabelecem na vida do paciente, mas caminhar ao lado daquele que quer buscar um caminho melhor para sua vida”, expõe Elisa.

 

Aceitação

Na visão de Monike, a aceitação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros tem melhorado por parte da sociedade de Marechal Rondon nos últimos anos, entretanto ainda há muito o que progredir. “A pessoa ser gay, por exemplo, não está na cara se ela não for muito afeminada, mas ser trans não tem como esconder. Por isso eu não tenho mais o que esconder, a gente se despe e é isso, dou a cara à tapa. Até onde eu sei sou a única em Marechal Rondon”, considera.

Monike diz que hoje está em um relacionamento lésbico com sua companheira, que é uma mulher cisgênero, ou seja, que se identifica com seu gênero de nascença, porém, afirma que “não sabe o dia de amanhã”. “A gente pode vir a faltar, ou não dar certo. Eu amo a pessoa dela. Hoje estou em um relacionamento homossexual com ela, mas eu me identifico como uma pessoa pansexual, e me sinto atraída por todos os tipos de gêneros. Não sei se posso amanhã ficar com homem ou mulher ou um trans ou uma trans, independente do que ela tem no meio das pernas. Eu tenho que amar o interior dela”, expressa. “Eu sou gente, a Jake é gente, nós pagamos nossos impostos e queremos respeito. Você pode não aceitar a vida que eu vivo ou quem eu sou, mas você tem que me respeitar”, conclui Monike.

 

Entendendo pelo biscoitinho

A identidade de gênero, explica Monike, é o que está na cabeça de cada um. “Como você se vê, se olha no espelho. Mulher, homem, transgênero ou gênero não-binário, que hoje também se usa muito”, descreve.

A expressão de gênero (masculino, feminino ou andrógeno) é explicada por ela da seguinte forma: tradicionalmente as mulheres depilam as pernas e existem muitas mulheres que não depilam as pernas, mas não é por isso que elas deixam de ser mulher. “Tem homens que na sociedade em que a gente vive não poderiam tirar a sobrancelha e tiram, depilam o peito, a perna e não deixam de ser homem”, ressalta.

O sexo biológico, comenta Monike, é a forma como a pessoa nasce biologicamente, ou seja, a genitália: vagina, pênis ou intersexual (com os dois sexos). “E hoje já os pais não podem decidir qual o sexo da criança. Tem que deixar ela quando crescer, decidir”, pontua.

Já a orientação sexual são os heterossexuais, bissexuais e homossexuais. “Eu particularmente prefiro condição, porque você veio condicionado ao mundo dessa forma e isso define pra quem você demonstra teu afeto, o teu desejo”, comenta.

Monike considera que vivemos em uma sociedade tão conservadora que se a pessoa não entende, ela não aceita. “Quando eu e minha companheira damos palestras, tentamos colocar isso para as pessoas, mas sempre há aqueles que não mudam sua visão”, expõe. “Nessas oportunidades sempre há aqueles que citam a religião, mas se você usar a bíblia como parâmetro para sua vida, ou você está morta ou presa. E nessas situações eu sempre deixo a seguinte menção que Cristo disse: ‘Amai-vos uns aos outros como eu vos amei’ e eu complemento que se você não é capaz de amar o teu próximo, pelo menos respeite”, ressalta.

 

Programação da campanha “Psicologia é com psicólogo”

Em Cascavel

Hoje (25)

19h15 - Abertura com o presidente do CRP-PR, João Baptista Fortes de Oliveira

19h30 - Apresentação cultural dos cursos de Psicologia da Unipar, FAG e Unopar

21h00 - Palestra “Sexo, drogas e rock androll: o que isso tem a ver com Psicologia”, com a psicóloga Sandra Fergutz dos Santos Batista

Local - Unipar

 

Amanhã (26)

13h30 - Palestra “A Psicologia a serviço de todas as cores”, com a psicóloga Sandra Fergutz dos Santos Batista

Local: Colégio Estadual Polivalente Pedro Boaretto Neto

 

17h00 - Café para psicólogos

Local - Café Blumenau

 

Domingo (27)

14h00 - 5ª Parada da Diversidade Social e Concurso Miss Trans 2017

Local: Praça Wilson Jofre

 

Em Marechal Cândido Rondon

Domingo (27)

19h00 - Encontro de Psicólogos

Local - Restaurante Pitaco