Marechal

Um comportamento na autoescola, outro no trânsito

 

Joni Lang/OP

Com 20 horas/aula para interessados em obter a CNH para conduzir motocicletas, índice de aprovação é próximo de 70%

Dia sim, dia não. É comum se deparar com motociclistas e condutores de veículos trafegando de forma irregular, tanto nas rodovias como nas ruas e avenidas dos municípios da região. Os casos mostram o desrespeito de boa parte das pessoas habilitadas para com as normas contidas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Portanto, as infrações não são privilégio de um único grupo.

É fato que as motocicletas fazem o trânsito fluir melhor por serem um veículo de menor porte e de fácil locomoção. Contudo, é corriqueiro encontrar motociclistas furando preferenciais, invadindo rotatórias, trafegando em velocidade incompatível, costurando o trânsito com motocicletas de diversos tamanhos e até mesmo ultrapassando do lado direito, ao invés do lado esquerdo.

Esses são apenas alguns dos fatores que contribuem para o elevado índice de acidentes com motocicletas, os quais quase sempre fazem vítimas - independente da gravidade. Alguns resultam em hematomas e ferimentos de média complexidade, outros em casos mais graves, que podem gerar sequelas ou então levar a óbito.

Por sinal, o comportamento inadequado, e muitas vezes até abusado, de muitos motociclistas no trânsito difere, e muito, daquele observado nas aulas de autoescolas. Mas, o porquê disso é o que muitas pessoas se questionam.

 

Excesso de confiança

Na opinião do diretor de ensino da Autoescola Marechal, Tiago Almir Port, após retirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), o condutor cria confiança e começa a abusar do seu conhecimento. “Esse excesso de confiança faz com que ele acredite ser hábil o suficiente para executar manobras arrojadas pouco tempo após conquistar a habilitação”, entende.

Ele diz que esse tipo de postura está se tornando bastante comum. “Enquanto o instrutor está do lado o aluno procura agir e tomar atitudes de acordo com a legislação. Após ter a habilitação na mão, ele vai paulatinamente mudando o seu comportamento. Ele vai se adaptando ao trânsito e começa a sofrer pressão dos outros porque a maioria faz o errado”, lamenta.

Port acredita que o que mais contribui para uma direção “agressiva” no trânsito é a falta de tempo das pessoas. “Elas querem retirar a diferença no trânsito, principalmente nos horários de pico, quando saem de suas casas para almoçar e retornar. São alguns fatores que a gente considera como sendo os vilões do alto número de acidentes”, pontua.

 

CNH mais rigorosa

De acordo com o diretor de ensino, atualmente não é tarefa fácil conquistar a CNH. Ele diz que a obtenção da carteira de habilitação tem ficado cada vez mais difícil. “A avaliação psicológica tem maior índice de reprovação, depois vem a teórica e a prova prática, sendo que esta última tem maior taxa de aprovação. “A maior reprovação na avaliação psicológica se deve ao momento emocional da pessoa. Hoje todo mundo está estressado, nervoso, tem muitos problemas e isso acaba afetando. Depois vem a avaliação teórica, que tem índice razoável de reprovação, mas nada assustador. No caso da prova prática a estimativa é de cerca de 30% de reprovações”, informa.

Conforme Port, o aluno passa por um período de 45 aulas teóricas contemplando leis de trânsito, direção defensiva e primeiros socorros, outras 25 para automóvel e 20 para motocicletas. O emocional, segundo ele, responde por 50% das reprovações.

Ele salienta que o Departamento de Trânsito (Detran) apresenta mudanças a fim de tornar ainda mais rigoroso o processo para a retirada da CNH, visando formar condutores mais qualificados e que respeitem as leis do trânsito. “A orientação por parte das autoescolas é de que os condutores, tanto de carro quanto de motocicleta, transitem sempre com segurança, aplicando a direção defensiva”, ressalta.

Comportamento inadequado

Para a instrutora da Autoescola Ila, Gleice Ferreira, o elevado número de acidentes no trânsito está ligado a problemas de comportamento, cujas pessoas não estão se adequando à atitude de aprendizado que tiveram nas autoescolas onde fizeram a habilitação. “Em todo processo eles passam por esse aprendizado com paradas, subidas e descidas obrigatórias, mas na prática o comportamento muda completamente. Esta é a realidade que a gente vê. Não tem como dizer que a pessoa continua seguindo porque ela não faz isso”, lamenta.

 

Teste aprimorado

Ela diz que o processo para concluir a habilitação tem se complementado cada vez mais, sendo que as avaliações psicológicas têm ficado mais complexas. “A parte teórica continua a mesma, com 45 horas/aula sempre estudando infrações e direção defensiva. São vários dias de legislação, cujo conhecimento é muito importante ao condutor. No caso de prova prática o índice de aprovação está na média de 70%”, comenta.

Gleice enaltece que para serem aprovados nos testes de motocicleta do Detran os alunos utilizam capacete com viseira baixa, precisam ter vestimenta e velocidade adequadas, trocar marcha de maneira correta e não exceder a velocidade. Porém, acrescenta, não é isso o que acontece no trânsito após a obtenção da CNH. “Tanto o condutor de motocicleta quanto o de veículo passam por 12 dias ou 12 noites com 45 horas/aula nas quais aprendem direção defensiva, primeiros socorros, toda parte de legislação, normas, multas, o que é importante para o crescimento enquanto condutor. Daí partem para a prática, fazem 20 aulas de motocicleta, conforme o Detran cobra. Fazem tão bem que passam, tanto que o índice de aprovação é bastante alto, no entanto não seguem os padrões depois de aprovados”, enfatiza.

 

Desatenção

De acordo com Gleice, a direção defensiva é assunto em pauta em todos os centros de formação de condutores (CFCs), principalmente aos interessados em conduzir motocicletas. “É focado muito na direção defensiva e na prevenção aos acidentes porque o motociclista é o para-choque. Agora no Maio Amarelo todos os CFCs estão destacando muito a direção segura. A gente percebe que quando entra no trânsito a situação muda porque as pessoas têm pressa, desatenção e preocupação com outras coisas que não interessam. Mais do que direção defensiva, as autoescolas tratam muito sobre isso ser uma questão de sobrevivência”, ressalta.

 

“Motociclista deve adotar a direção defensiva”, orienta PM

O responsável pelo Setor de Trânsito da 2ª Companhia da Polícia Militar (PM) de Marechal Cândido Rondon, soldado Claudinei de Oliveira Garcia, diz que as ruas largas na região central de Marechal Cândido Rondon podem contribuir para que os motociclistas se tornem descuidados e mantenham em alta os índices de acidentes no município. “Ele (motociclista) não coloca o veículo no local adequado para trafegar na pista, ou seja, se ele transita muito próximo do canteiro central ou do meio-fio pode indiretamente provocar um acidente. É preciso estar atento à sinalização quando um veículo grande vai manobrar, por isso, ao ligar a seta, é necessário verificar se é possível fazer a conversão naquele cruzamento. Se não tiver espaço suficiente o condutor deve ir até a próxima esquina”, sugere.

Garcia enaltece que a PM desenvolve palestras em escolas, instituições e empresas, além de campanhas educativas com o objetivo de orientar os condutores de veículos em geral. “O motociclista adquire novos hábitos e esquece dos antigos, por isso é importante adotar a direção defensiva. Este condutor é cuidadoso. Ao chegar no cruzamento das rotatórias há confusão, pois motociclista e motorista não sabem de quem é a preferência. A próxima etapa é de quem está na direita. Além de cuidar do seu veículo, o condutor cuida dos demais no trânsito”, menciona.

De acordo com o soldado, é essencial que o motociclista trafegue no meio da faixa, evitando ser fechado pelos condutores de veículos. “Se eu estiver no meio da faixa, eu me protejo da ultrapassagem indevida ou de um cruzamento que alguém pode fazer. Assim o motociclista protege a própria vida e evita outros acidentes. Esta é uma questão de saúde pública, porque é preciso pensar que muitos recursos são demandados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) no atendimento dos acidentados”, finaliza Garcia.