A falta de trabalhadores para ocupar vagas nas indústrias de alimentos do Oeste do Paraná deixou de ser um problema pontual e passou a influenciar diretamente as estratégias de expansão das cooperativas agropecuárias. Em uma região que concentra um dos maiores polos de produção de proteína animal do Brasil, a contratação de estrangeiros ganhou escala nos últimos anos e se tornou peça importante para manter as linhas de produção em funcionamento.
Na Frimesa, uma das maiores processadoras de carne suína e derivados de leite do país, os imigrantes assumem funções essenciais na manutenção das operações industriais. Hoje, dos quase 13 mil funcionários da cooperativa, 1.790 são estrangeiros. Eles atuam em praticamente todos os setores das unidades industriais, especialmente nas plantas de Medianeira, Marechal Cândido Rondon e Assis Chateaubriand. Somente nos últimos três anos, 4.207 trabalhadores imigrantes passaram pela empresa. “O público estrangeiro tem participação expressiva e vital em nossas operações, concentrada majoritariamente nos polos industriais de grande porte. A procura por profissionais aumentou porque a mão de obra na região Oeste do Paraná, principalmente nas indústrias, está aquecida, o que também atrai estrangeiros que buscam no Brasil trabalho, qualidade de vida e renda fixa”, afirma o presidente executivo da Frimesa, Elias José Zydek.
Presidente executivo da Frimesa, Elias José Zydek: “Hoje temos 1.261 operadores de produção e 209 auxiliares de higienização estrangeiros. Se esses trabalhadores deixassem de estar no Brasil, teríamos ainda mais falta de pessoas em vários setores e, em alguns casos, precisaríamos diminuir a velocidade das linhas”
A mudança de perfil começou a ganhar força entre 2023 e 2024. Até 2022, a contratação de estrangeiros ocorria em ritmo reduzido. Em 2023, a cooperativa admitiu 438 imigrantes. No ano seguinte, esse número saltou para 823 e atingiu o maior patamar em 2025, quando 1.169 estrangeiros foram contratados.
Segundo Zydek, o aumento coincide com a expansão industrial da cooperativa, especialmente após a entrada em operação do frigorífico de Assis Chateaubriand, que ampliou a demanda por trabalhadores. “O salto nas contratações acompanha nossos planos de expansão e a necessidade de ocupar a capacidade das plantas industriais. O mercado de trabalho regional está aquecido e a disputa por profissionais ocorre em diversos setores”, aponta.
A escassez, contudo, não se limita aos estrangeiros. A Frimesa relata dificuldades para preencher vagas entre brasileiros e imigrantes, principalmente em funções ligadas à manutenção industrial, cargos técnicos e setores que exigem trabalho em ambientes frios ou em turnos noturnos e de madrugada.
A área de cortes é a que concentra o maior número de trabalhadores estrangeiros. São 493 profissionais ativos. Em seguida aparecem a sala de miúdos, com 165 colaboradores, a área de abate, com 113, e a higiene interna, com 101 trabalhadores.
Na avaliação de Zydek, a retirada repentina desses profissionais teria efeitos imediatos sobre a produção. “Hoje temos 1.261 operadores de produção e 209 auxiliares de higienização estrangeiros. Se esses trabalhadores deixassem de estar no Brasil, teríamos ainda mais falta de pessoas em vários setores e, em alguns casos, precisaríamos diminuir a velocidade das linhas. Todo colaborador é importante e, quando não está em nossa empresa, gera impactos drásticos no processo produtivo”, afirma Zydek.
Mais de 30 nacionalidades
A presença de estrangeiros também alterou o perfil demográfico da força de trabalho da cooperativa. Atualmente, a Frimesa reúne profissionais de mais de 30 nacionalidades, mas a predominância é latino-americana. Os venezuelanos lideram o quadro de trabalhadores estrangeiros, com 1.067 profissionais ativos. Os paraguaios ocupam a segunda posição, com 409 colaboradores, seguidos por cubanos, com 120, e haitianos, com 116.
A gerente de Gente & Gestão da Frimesa, Cinara Munhoz Cazorla, afirma que o grupo venezuelano foi o que mais cresceu em números absolutos nos últimos anos. “A mão de obra venezuelana aumentou 35,8%, passando de 786 trabalhadores em 2024 para 1.067 atualmente. Já os cubanos tiveram o maior crescimento proporcional recente, triplicando sua presença, de 42 para 120 colaboradores”, menciona.
Rotatividade
Os índices de permanência, porém, variam conforme a nacionalidade. Enquanto haitianos e paraguaios costumam permanecer mais tempo na cooperativa, venezuelanos e cubanos apresentam maior rotatividade nos primeiros meses de trabalho.
Dados da Frimesa mostram que haitianos permanecem, em média, 559 dias antes do desligamento, enquanto paraguaios ficam 516 dias. Entre os venezuelanos, o período médio é de 193 dias. Já os cubanos permanecem, em média, 122 dias. “A média geral de permanência dos estrangeiros desligados é de aproximadamente 337 dias, mas existem diferenças culturais, sociais e econômicas que influenciam diretamente esses indicadores”, explica Cinara.
Apesar da rotatividade em algumas nacionalidades, a cooperativa considera que haitianos e paraguaios apresentam índices de retenção competitivos e, em muitos casos, superiores aos observados entre trabalhadores locais nas funções de operador de produção.
Desafios além da contratação
Os desafios, entretanto, vão além da contratação. A integração de trabalhadores vindos de diferentes países exige adaptações no ambiente de trabalho e nas cidades que recebem esse fluxo migratório.
Segundo Cinara, a barreira linguística é um dos principais obstáculos, especialmente em treinamentos e orientações relacionadas à segurança e à qualidade dos processos industriais.
A chegada crescente de trabalhadores estrangeiros também impõe desafios fora do ambiente fabril. A oferta de moradias e a estrutura de transporte nas cidades que concentram as unidades industriais passaram a exigir maior articulação entre empresas e poder público. “Cidades polo, como Medianeira, enfrentam inflação habitacional. A cooperativa precisa atuar em sinergia com os municípios para garantir que os recém-chegados encontrem moradias dignas e transporte compatível com as escalas de revezamento e turnos”, afirma.
A convivência entre profissionais de diferentes culturas também exige programas de integração. Por isso, a Frimesa desenvolve um projeto voltado especificamente aos imigrantes, com ações de apoio à documentação pessoal e educacional, aulas de português, atividades culturais e tradução de materiais orientativos.
Papel da automação
Ao mesmo tempo em que amplia ações de acolhimento, a cooperativa intensifica investimentos em tecnologia. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, a automação não tem reduzido a necessidade de trabalhadores.
Robôs para paletização, esteiras inteligentes e equipamentos automatizados de corte vêm sendo incorporados às fábricas para compensar a dificuldade de contratação e reduzir tarefas repetitivas. “Na prática industrial da Frimesa, a automação não está reduzindo a necessidade de pessoas. A tecnologia absorve o esforço repetitivo pesado e garante que a fábrica continue rodando mesmo quando as metas de contratação local não são atingidas”, aponta Zydek.
Necessidade de mão de obra
A necessidade de mão de obra tende a permanecer elevada nos próximos anos. A Frimesa projeta atingir faturamento de R$ 15 bilhões entre 2030 e 2032. A estratégia inclui ocupar integralmente a capacidade das plantas industriais já construídas, ampliar a participação das vendas no mercado paulista, elevar a oferta de produtos industrializados e funcionais e tornar a estrutura organizacional mais enxuta.
Contudo, Zydek ressalta que nenhuma dessas metas será alcançada sem pessoas. “Precisaremos de trabalhadores brasileiros e imigrantes. Temos grandes frentes voltadas à retenção de talentos, saúde, bem-estar, qualidade de vida e qualificação profissional. A mão de obra continuará sendo uma necessidade permanente para a Frimesa”, evidencia.
Especializada em carne suína e derivados de leite, a Frimesa reúne as cooperativas filiadas Copagril, Lar, Copacol, C.Vale e Primato. A empresa encerrou 2025 com faturamento bruto de R$ 7 bilhões, crescimento de 7% em relação ao ano anterior. Do total comercializado, 26% tiveram como destino o mercado externo, com exportações para quatro continentes, enquanto 74% foram destinados ao mercado interno.

Com O Presente Rural
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