O Presente
Agronegócio

O agro que não cabe no estereótipo

calendar_month 3 de fevereiro de 2026
3 min de leitura

Nos últimos meses, o Brasil alcançou posições inéditas em algumas das principais cadeias do agronegócio mundial. Não são números isolados nem recordes circunstanciais. São indicadores de um movimento mais consistente: a consolidação do agro brasileiro como um sistema produtivo maduro, capaz de sustentar escala, eficiência e competitividade ao longo do tempo.

O país tornou-se o terceiro maior exportador de carne suína do mundo, assumiu a liderança como maior produtor global de carne bovina e mantém uma posição histórica de destaque na avicultura, como segundo maior produtor e maior exportador de carne de frango. Esses resultados colocam o Brasil entre os poucos países que ocupam posições de liderança simultânea em múltiplas proteínas animais – um feito que exige muito mais do que expansão de área ou aumento pontual de produção.

Essas posições não se sustentam com discurso. Exigem sanidade rigorosa, rastreabilidade, escala, eficiência logística, genética, nutrição de precisão, indústria integrada e capacidade de cumprir contratos quando o mundo inteiro está comprando — e quando parte dele está em crise. Países que não dominam processos não chegam a esse patamar. Chegam a picos. O Brasil sustenta.

O mesmo raciocínio vale para as lavouras. O país é hoje o maior produtor mundial de soja, figura entre os líderes globais em milho, domina cadeias como açúcar, café, suco de laranja e algodão, e avança com consistência em segmentos que raramente entram no debate público, mas dizem muito sobre eficiência produtiva. A produção de ovos é um exemplo claro: a projeção é que o consumo nacional ultrapasse 300 ovos por habitante ao ano em 2026, um indicativo direto de oferta estável, custo competitivo e acesso ao alimento.

O que une todas essas cadeias não é apenas clima ou disponibilidade de terra. É método. É repetição de desempenho. É um agro que aprendeu a operar sob pressão ambiental, sanitária, econômica e reputacional – muitas vezes ao mesmo tempo.

E aqui surge o paradoxo brasileiro.

Enquanto o país se consolida como um dos maiores provedores de alimentos do mundo, parte do debate interno ainda trata o agro como se fosse uma atividade rudimentar, predatória por definição, incompatível com ciência ou sustentabilidade. Essa narrativa não vive apenas nas redes sociais. Ela aparece em discursos acadêmicos simplificados, em livros didáticos desatualizados e em análises urbanas que observam o campo à distância, com visões míopes que já não explicam a realidade.

Não se trata de negar conflitos, impactos ou desafios. O agro brasileiro tem problemas. Mas reduzi-lo a caricaturas é intelectualmente pobre e estrategicamente perigoso. Um país que não compreende o seu principal sistema produtivo caminha para decisões ruins, políticas frágeis e debates estéreis.

Sem o agro, o Brasil não seria apenas menos competitivo. Seria menos relevante. Menos soberano. Menos capaz de alimentar a própria população a preços acessíveis. Menos preparado para responder às crises globais que, cedo ou tarde, sempre chegam.

O agro moderno não pede aplauso. Pede compreensão. Não busca unanimidade. Busca racionalidade. Ele não é perfeito — mas é, hoje, um dos raros setores nacionais capazes de transformar conhecimento em escala, eficiência em constância e produção em poder geopolítico.

Os números recentes não são um ponto de chegada. São um aviso: o Brasil já opera em outro patamar. A pergunta que fica não é se o agro avançou. É se o debate público vai conseguir alcançá-lo.

Giuliano de Luca é jornalista. Editor-chefe do Jornal O Presente Rural e do O Presente Pet

 
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