“Em 2025, crescemos 19%. Para 2026, esperamos crescer entre 15% e 20%. Nossa projeção estratégica até 2030 é dobrar o faturamento”, diz o administrador de empresas Dilvo Grolli, 72 anos, presidente do Conselho de Administração da Coopavel, cooperativa agroindustrial sediada em Cascavel (PR), um município que é polo de grãos, proteína animal e cooperativismo no Oeste do estado, com forte presença de soja, milho, aves e suínos.
Na prática, dobrar o faturamento levaria a Coopavel a sair de uma receita de US$ 6,3 bilhões para cerca de R$ 13 bilhões em apenas quatro anos. Hoje, a cooperativa já é uma das principais do país, uma processadora de grãos e proteína animal, com abates de frango, suíno e peixes.
Os planos podem parecer mirabolantes mesmo para um ambiente de crédito restritivo no agro, tensão geopolítica e custos pressionados dentro da porteira. Mas para Grolli, que há cerca de 40 anos está no comando dessa cooperativa de 55 anos, a tarefa está em sua agenda e isso não o assusta.
A história do executivo explica essa calma. Grolli se associou à Coopavel em 1985, em um momento drástico de quase falência da cooperativa. Na época, para cada R$ 1 de capital a Coopavel tinha R$ 3 de dívida. Hoje, para cada R$ 1 de capital, são quase R$ 70 de receita.
Hoje, cooperativa abre o calendário das feiras agropecuárias no país, um dos principais eventos do setor, tornando-se um radar nacional desse circuito com o Show Rural Coopavel.
A feira recebeu 420 mil visitantes e reuniu 600 empresas expositoras entre máquinas e implementos agrícolas, e com estimativa de R$ 7 bilhões em negócios tornou-se a vitrine da mudança estrutural da própria cooperativa.
Investimentos e estrutura
Em 2025, a cooperativa recebeu cerca de 1,2 milhão de toneladas de grãos, abateu 66,2 milhões de aves, 647,7 mil suínos, produziu 622,5 mil toneladas de ração e quase 200 mil toneladas de fertilizantes. Atualmente, a cooperativa possui são exatos 8.213 produtores, dos quais 74% são pequenos proprietários rurais, 7,7 mil funcionários atuando em cerca de 30 filiais no Paraná, com exportação para 40 países.
Segundo Grolli, a verticalização da cooperativa tem permitido capturar valor ao longo da cadeia. Ele resume a equação econômica com pragmatismo.
Transformar grãos em proteína não é tratado apenas como uma boa performance operacional, mas é visto como um movimento estratégico acompanhado pelo maior ciclo de investimentos da história da organização. Foram R$ 477 milhões, dos quais 90% dos recursos próprios, para entrar em uma nova proteína. Em 2024 começaram os investimentos em infraestrutura e no ano passado um dos cooperados enviou o primeiro lotes de tilápias para abate.
Em um cenário de Selic nas alturas, a escolha pelo capital próprio não foi trivial. “Atualmente, enfrentamos uma taxa Selic de 15%, o que torna o custo financeiro muito alto”, diz Grolli. A decisão de reduzir a dependência bancária preservou margem e caixa para a etapa seguinte. Mas o ambiente financeiro ainda impõe cautela para o restante das atividades dos cooperados.
“A perspectiva é de que a Selic caia para 12% até dezembro de 2026”, diz Grolli. E acrescentou: “Esperamos que o Plano Safra 2026/27 traga uma redução de 1 a 2 pontos percentuais nos juros.”
Os fundamentos para dobrar o faturamento
“Quanto ao número de cooperados, ele deve se manter estável. Não temos mais a entrada de novas pessoas de outras regiões, porque a divisão agrária já está consolidada”, diz Grolli.
Pare ele, o crescimento da receita da cooperativa virá da sucessão familiar. Os filhos e herdeiros assumindo as propriedades, tendem a se engajar mais na produção e, consequentemente, influindo em maior produtividade nos próximos anos. Além de apostar muito inovações tecnológicas para extrair o máximo de cada safra.
“Queremos crescer de 2% a 3% todos os anos por meio de novos insumos e biotecnologia que fortaleçam as culturas de soja, milho e trigo”, afirma. “Nossa estratégia até 2030 é consolidar a solidez social e econômica sem sair do Paraná.
Na leitura do presidente, o produtor monitora hoje três variáveis centrais: “O que o empresário rural precisa monitorar hoje são o financeiro (juros),a logística (alta dos combustíveis) e o tributário.”
Outro desafio está na trinca geopolítica, comércio e papel institucional, desafios que estão no campo político do setor. Não por acaso, para crescer, o olhar da cooperativa ultrapassa a fronteira estadual. O agronegócio brasileiro exportou cerca de US$ 170 bilhões (R$ 886 bilhões) em 2025, com importações próximas de US$ 22 bilhões (R$ 115 bilhões). “A balança comercial brasileira é sustentada pelo agro”, diz ele.
Nessa seara, a escalada do protecionismo preocupa Grolli. “Existe uma preocupação real com a geopolítica internacional e o aumento do protecionismo.” Por isso, a saída não está em retórica, mas em negociação: “A única saída para o Brasil é a negociação técnica e política, interesse por interesse, país por país.” Ao mesmo tempo, Grolli reforça o papel institucional da Coopavel.
E há um ponto que ele faz questão de destacar: “Muitas vezes, a área urbana apresenta uma demanda e imagina que ela será resolvida na próxima semana. No campo, as mudanças levam tempo para maturar.”
Entre essas mudanças estão justamente as de maior rigor sanitário, além das preocupações com o meio ambiente e o clima. “Veja o caso da influenza aviária: o problema explodiu nos EUA e na Europa e entrou no Brasil em 15 de maio de 2025. Levamos seis meses para resolver a situação e isso serviu de lição”, diz Grolli.
Com Forbes
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