
Com as obras do novo frigorífico em Assis Chateaubriand em ritmo acelerado – previsão de seis meses adiantada -, a Frimesa, cooperativa central focada em suínos e lácteos, volta os olhos para o mercado consumidor paulista e se atenta à revolução nos hábitos de consumo brasileiro.
Em entrevista à revista Pitoco, o presidente da cooperativa, Elias José Zydek, revela que a meta da Frimesa é ampliar sua participação no mercado nacional dos atuais 8,5% para 14% até 2032, com foco especial no Estado de São Paulo. “É onde se concentram o poder de compra e o volume de consumo. O primeiro mercado de alimentos do Brasil é a Grande São Paulo. O segundo é o interior de São Paulo. Necessariamente, você tem que estar presente nesses mercados. E, para conquistar esse mercado, estamos adequando os produtos ao novo consumidor”.
Com um investimento já aplicado de R$ 1,3 bilhão, a parte civil da obra da unidade de Assis – uma das maiores da América Latina para abate de suínos – já está concluída, restando a instalação de máquinas e equipamentos, devendo ser entregue na metade de 2027.
Apesar do crescimento em 2025, nem tudo são flores. Zydek afirma que os desafios para 2026 são imensos, especialmente devido ao câmbio e à perda de poder aquisitivo da população, decorrente das bets e do endividamento. Outro impacto na cadeia produtiva é a mudança de hábitos do consumidor com as “canetinhas” emagrecedoras. Mas, para isso, a Frimesa já está com a estratégia na mesa: aposta em alimentos mais nutritivos e pratos prontos de “comida de verdade”.
Confira tudo isso e muito mais nesta entrevista especial:
Pitoco – Em 2025, a Frimesa faturou R$ 7 bilhões, crescimento de 7% sobre o ano anterior. Como o senhor avalia esse resultado em um ano considerado desafiador para o agronegócio?
Elias Zydek – O ano de 2025 foi puxado! O agronegócio, especialmente a proteína animal, foi impulsionado pelo bom desempenho das exportações. O mercado interno manteve o nível de consumo, mas a exportação cresceu cerca de 12% na área de suínos. Isso absorveu o aumento da produção brasileira, que ficou em torno de 5%, e gerou certa estabilidade de preços, tanto no mercado interno quanto no externo. Esse fator representa 25% do faturamento da carne suína brasileira. Na Frimesa, representou 27% do faturamento no ano passado. Foi um dos principais fatores que nos permitiram ter um bom faturamento e cumprir o planejamento de resultados.
E qual a projeção para 2026?
Nosso planejamento era faturar R$ 8 bilhões, crescimento de 14% no faturamento. Nossa estratégia como empresa é 75% para o mercado interno e 25% para o externo, tanto na produção quanto no faturamento. Esse era nosso plano, mas… depois falamos mais sobre isso.
“O crescimento da Frimesa a partir de 2032 não será em abates nem em commodities. Serão produtos destinados a públicos e canais certos”
Houve mudança no destino das exportações?
Em termos de destino, não. Mas, em 2026, o mercado mudou totalmente. O volume permanece, mas o faturamento caiu drasticamente por causa do câmbio. Houve uma queda muito forte do dólar – de R$ 5,50 para R$ 5. Esses 10% de queda simplesmente inverteram o resultado positivo para prejuízo.
O acordo Mercosul-União Europeia entrou em vigor em maio. Há alguma influência?
Para o nosso setor, tanto faz. Talvez o frango tenha alguma vantagem, mas a suinocultura e o leite podem ser mais prejudicados do que beneficiados com o acordo.
O Mercado Comum Europeu é bom em negociação e o acordo tem muitas ressalvas. Por exemplo: na área de grãos e proteína, se o Brasil aumentar mais de 5% do volume que exportava antes do acordo, voltam a vigorar as taxas anteriores. Ou seja, eles limitaram o crescimento da exportação do agro para a União Europeia em 5%. E quanto estamos exportando hoje? 0,01%. Cinco por cento de 0,01% é nada! Ou seja, eles bloquearam a entrada. Talvez a única vantagem seja na importação de máquinas e equipamentos da indústria de processamento, com menos taxas. Do lado de exportar, não há benefício algum.
Os conflitos recentes no Oriente Médio impactaram as exportações?
O impacto é mais logístico. Houve aumento das taxas de risco e do seguro de transporte. Exportamos por contêineres, produtos congelados. O custo do contêiner dobrou: de 2 mil para 4 ou 5 mil dólares. No mercado interno, a subida dos combustíveis elevou o custo do transporte rodoviário. Em resumo, sofremos dois impactos: o custo logístico marítimo e o rodoviário interno.
Vocês já conseguiram mensurar esse aumento de despesa?
Sim, 12% nos fretes internos. Ainda tivemos o impacto dos pedágios nas rodovias paranaenses, que começaram a vigorar nos últimos meses, um valor que não existia há um ano.
E o preço da carne acompanhou a alta de custo?
Não. Caiu. No mercado interno, houve queda de 8,3% em relação ao ano passado.
Por quê?
Falta de poder aquisitivo. O povo não tem dinheiro e está endividado.
Nós temos três teses que já são realidade. A primeira é a busca pela saúde, o uso das “canetinhas” emagrecedoras. Isso representou uma queda de 13,5% no consumo de alimentos. Os mais afetados foram carboidratos e bebidas. A segunda é a jogatina, as bets. Hoje, o cidadão é influenciado por várias formas de jogo (e gasta sua renda com isso). O terceiro concorrente dos alimentos é a dívida, o cartão de crédito, o endividamento. Setenta por cento das famílias estão endividadas. Estimativas indicam que as canetinhas retiraram do consumo cerca de R$ 70 bilhões por ano. A jogatina, R$ 120 bilhões. E o endividamento com juros altos retirou R$ 130 bilhões. É lógico que o consumo está caindo.
Estamos diante de uma nova revolução. O problema não está dentro da cadeia produtiva. Não adianta eu trabalhar na propriedade rural, no frigorífico ou na indústria. Hoje, os problemas são as guerras, os combustíveis, as jogatinas, os hábitos, o juro alto… Por isso, respondendo à pergunta anterior sobre os planos para 2026, a previsão para este ano é muito pessimista. Não devemos atingir o planejamento de faturamento: se perdemos 10% na exportação e 8% no mercado interno, é lógico que não vamos atingir o previsto e a margem de resultado achatou, por causa dos custos de logística.
“O hábito de consumo está mudando. Hoje, o consumidor quer comida em casa e está deixando de ir ao supermercado fazer rancho. Isso impacta toda a cadeia produtiva”
Por que a carne suína, sendo uma das mais baratas, não cresce mais no consumo? Ainda existe preconceito?
Já mudou bastante, mas sempre existe um pouco. Na região Sul-Sudeste, nos últimos cinco anos, saímos de 16 kg per capita para 19 kg este ano. Se o brasileiro tivesse dinheiro, já estaria consumindo 25 kg. O problema não é preconceito, é falta de dinheiro no bolso.
O povo mais evoluído da Europa consome 40 kg per capita, e alguns países chegam a 60 kg. A carne suína é a mais consumida do mundo, mais que o frango. O frango cresceu pelo custo e pela acessibilidade, e vendeu a ideia do peito ser carne mais magra, mas a coxa tem mais colesterol do que os cortes suínos…
Além disso, o hábito de consumo está mudando. Hoje, o consumidor quer comida em casa e está deixando de ir ao supermercado fazer rancho. Isso impacta toda a cadeia produtiva. O preparo do alimento e a forma de apresentação são muito diferentes de uma indústria de cortes ou de pratos prontos. É uma revolução recente no setor de proteína animal.

Como a Frimesa está se adaptando a essa mudança no padrão de consumo?
Estamos lançando cortes brancos que informam o teor de proteína em cada produto. Em breve, o consumidor também encontrará nossos snacks de proteína voltados para o consumo imediato. Temos que nos adaptar a essas mudanças.
Em agosto, lançaremos o “prato pronto”, com bastante destaque para a proteína. Fizemos uma pesquisa com o consumidor e descobrimos que: ele gostaria de ter um prato equilibrado, com a necessidade diária de proteína, carboidratos e fibras, por até R$ 30. Estamos falando das classes C, D e E, a massa consumidora.
Você não vai ver o corte isolado, vai ver o prato pronto. Desenvolvemos o produto com tecnologia. Basta usar o micro-ondas: em 7 minutos a comida está servida. Sem glúten, baixa gordura, baixo colesterol, sem nitritos. Trabalhamos com o conceito de “comida de verdade”. No prato, você enxerga o brócolis como in natura, o lombinho ou o peito de frango bem separados.
Esses produtos vêm com a marca Frimesa? Os demais alimentos serão vendidos em parceria?
Sim, em parceria. Fechamos contrato com uma empresa da Grande São Paulo. A estratégia é testar o mercado por um ou dois anos antes de construir uma fábrica.
O crescimento da Frimesa a partir de 2032 não será em abates nem em commodities. Serão produtos destinados a públicos e canais certos. Talvez viremos uma indústria de alimentos, não apenas um frigorífico. Esse é o grande desafio: acompanhar a revolução do mercado. Um corte de carne que precisa de duas horas no forno não faz mais sentido para quem não tem tempo.
Se o senhor pudesse destacar uma única conquista da gestão da Frimesa e um único desafio ainda não superado, quais seriam?
A grande conquista foi a profissionalização. Por trás disso, vieram as visões de olhar o mercado e o consumidor. Se eu não atender esse novo consumidor, nada se viabiliza. E o desafio que ainda falta transformar é exatamente esse: atender o novo consumidor.
Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente
