Copagril – Sou agro com orgulho
Arno Kunzler

1964 x 2021

Uma grande mobilização nacional está sendo cuidadosamente articulada por bolsonaristas de todo o Brasil para levar a Brasília uma grande multidão no dia 07 de setembro.

O objetivo da concentração de brasileiros em Brasília, segundo se pode acompanhar pelas convocações através das redes sociais, é “proclamar uma nova independência” do Brasil.

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E sempre fica subentendido, nas manifestações do presidente Jair Bolsonaro, que algo vai acontecer.

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Para os bolsonaristas mais identificados com o discurso do presidente, esse algo deve ser, preferencialmente, a intervenção militar no Supremo Tribunal Federal (STF).

Se isso é possível legalmente, não sei. Se é necessário, também não sei. Mas se isso deve ser feito, tenho certeza que não.

Os mecanismos para corrigir rumos – e certamente existem rumos a serem corrigidos, tanto no STF, no Congresso Nacional como no governo federal – estão previstos na Constituição e não devem ser através de nenhuma intervenção militar.

Intervir no Supremo, à força, pode ser apenas o primeiro “à força”, de consequências imprevisíveis.

Não, não queremos regime militar, ou ditadura militar, como queiram, para substituir a democracia, por mais defeituosa que a democracia possa ser.

A nossa geração foi marcada por uma ditadura, que preferem chamar de regime militar, e por mais coisas boas que se possa esperar de um regime militar, não há nada mais importante que a normalidade democrática.

Nossa geração, pela experiência que vivemos, tem obrigação de lutar contra qualquer intervenção militar.

Invocar a prisão de Roberto Jefferson, supostamente sem o devido processo legal, como alegam, para intervir no Supremo, é algo absurdamente enganoso.

Trata-se de um corrupto confesso presente em todos os governos desde 1990 e com histórico de incitação à violência contra pessoas, autoridades e instituições.

Em qualquer lugar do mundo Roberto Jefferson seria preso se falasse o que falou.

Se os 11 ministros do Supremo, nomeados em épocas diferentes e por seis presidentes da República, de partidos diferentes, todos sabatinados e aprovados pelo Senado, não são bons o suficiente, quem garante que os 11 novos ministros, supostamente nomeados pelo presidente Bolsonaro, seriam melhores?

É certo que cada um de nós tem discordâncias com atitudes deste ou daquele ministro, mas a nossa Corte não é e nunca será formada por seres superiores e infalíveis.

Sempre serão 11 seres humanos sujeitos a erros. Assim como o presidente erra, os senadores e deputados erram e os governadores e prefeitos erram, eles também erram. Temos que condenar seus erros, criticar seus equívocos, questionar suas decisões duvidosas e até mudar a lei e suas competências, mas, intervenção militar, nunca.

O sentimento que carregamos que a solução sempre está do lado de fora, ou do outro lado da rua, como dizem em Brasília, é o mesmo sentimento do torcedor de futebol que quer a demissão do técnico do seu time porque perdeu um jogo que não devia. Ou a troca de jogadores porque perderam gols.

Nem sempre os que entram são melhores e quase sempre os times que mais trocam de técnicos são candidatos a rebaixamento.

Os países que têm maior instabilidade institucional, que mais trocam seus dirigentes, são econômica, social e politicamente mais frágeis.

É onde há mais problemas, onde a população sente menos segurança e menos perspectiva de futuro.

Não dá para esperar soluções milagrosas ao gosto do dirigente de plantão. Um país sério, que pretende ser grande, precisa de estabilidade e confiabilidade nas instituições.

Fora das lidas democráticas, as promessas de soluções podem até ser fáceis, mas quase sempre são ainda mais difíceis, quando não impossíveis.

Não vamos repetir 1964 em 2021.

 

Arno Kunzler é jornalista e diretor do Jornal O Presente e da Editora Amigos

arno@opresente.com.br

Grupo Costa Oeste 2021

 

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