Editorial

4,9 bilhões de problemas

O Brasil é uma grande piada de mau gosto. Aliás, o Brasil é maravilhoso. A maior biodiversidade do planeta, rios, montanhas, praias, campos e florestas. São seis biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Mais da metade de toda a vegetação nativa que Pedro Alvares Cabral encontrou aqui ainda está intacta. Mesmo assim, tem uma economia poderosa, baseada em indústria, comércio, serviços e agronegócio. Produz alimentos para todos os brasileiros e centenas de milhões de pessoas pelo planeta. Tem uma cultura exuberante, riquíssima, e um povo dos mais acolhedores e felizes do planeta. Tem megalópoles, onde o tempo voa, mas também cidades pequenininhas, onde o tempo passa devagar.
No entanto, vira piada quando o assunto é administração pública. O Estado, que deveria ao menos dar as condições básicas para o brasileiro, é omisso, desajeitado e, porque não, mal-intencionado.
Desde a formação da República, em 1822, até agora, os governos sucessivos do Brasil só conseguiram levar água potável a 84% de sua população. Atualmente, metade dos brasileiros ainda não tem esgoto tratado. Nas favelas das grandes cidades brasileiras, a inoperância e o vácuo deixado pelo Estado deu espaço para que milícias e traficantes ganhassem o poder. Nesses locais, quem manda não é o Estado.
A alta carga tributária imposta aos brasileiros pelo Estado corrói a grana do cidadão e das empresas, que sofrem também com uma das maiores burocracias do mundo e com a corrupção que existe em todas as esferas governamentais, nas casas legislativas e também no Judiciário. É claro que existem exceções, mas basicamente no Brasil para ter boas estradas, pedágio; para ter boa segurança, segurança privada; para ter boa assistência em saúde, plano de saúde; para ter educação, educação privada.
São 4,9 bilhões de problemas que o Brasil precisa resolver, mas que governos atrás de governos, deputados e senadores que vão e vêm, se negam a fazer. Ou não sabem, ou não conseguem ou preferem colocar seus interesses acima dos interesses da população, acima dos interesses populares.
Congressistas e o governo federal articularam, manobraram e, mais uma vez, colocaram seus interesses acima dos interesses do povo brasileiro. Ontem (24) foi publicado no Diário Oficial da União a sanção presidencial que libera R$ 4,9 bilhões para que partidos políticos façam suas campanhas ou, como todo mundo bem sabe, usem a seu bel prazer.
São R$ 4,9 bilhões que poderiam atender setores produtivos, que poderiam melhorar os índices de saneamento básico, que poderiam ser investidos em infraestrutura ou ações para beneficiar o brasileiro. O que o cidadão ganha com esse recurso? Nada. Aliás, perde. Perde R$ 4,9 bilhões.
A crítica não é apenas para quem comungou com essa ideia absurda de destinar valiosos R$ 4,9 bilhões para “campanhas políticas”. A crítica é para todo o sistema que administra essa maravilhosa nação brasileira e que insiste em ser ineficiente e egocêntrico. Ao longo dos anos, o brasileiro já viu cada coisa de seus eleitos. Esse foi só mais um coice. O pior é saber que outros tantos virão.

Congressistas e o governo federal articularam, manobraram e, mais uma vez, colocaram seus interesses acima dos interesses do povo brasileiro

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