Copagril
Dom João Carlos Seneme

A dignidade restituída e a esperança renovada

 

No evangelho de domingo passado (31) refletimos sobre uma parábola. Neste domingo, dia 7, nos é apresentado um fato real. O tema continua o mesmo, a misericórdia. Os personagens se repetem: o filho mais novo, uma mulher adúltera, o filho mais velho, os fariseus, um Pai bondoso, um Mestre, Jesus. O perdão se realiza. Só fica faltando a realização de uma festa. Mas sabemos que há sempre alegria no céu por um pecador que se converte.

Vamos ao evangelho deste 5º domingo da quaresma. O evangelho nos relata um episódio em que os fariseus e os mestres da lei apresentam uma mulher surpreendida em adultério e sugerem que Jesus aplique a lei de Moisés que diz que ela deve ser apedrejada até a morte. O primeiro pensamento de Jesus seria perguntar onde se encontra o homem cúmplice, o adultério implica duas pessoas! Os fariseus e mestres da lei sabiam que a lei determinava que os dois deviam ser apedrejados, não somente a mulher. A atitude deles revela que se tratava de uma armadilha para Jesus. Não lhes interessava cumprir a lei, mas surpreender Jesus para que ele se manifestasse contra a lei: “perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de acusá-lo”. Ao mesmo tempo, queriam desmoralizá-lo, uma vez que o centro de sua mensagem era o perdão.

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Jesus consegue escapar da armadilha e denuncia o pecado de cada um, de modo que todos deixam o local humilhados porque todos eram pecadores e não podiam apontar o dedo na direção da pecadora. Lançar a pedra é cômodo. O “farisaísmo” é a doença de quem não se olha no espelho. Todos nós carregamos luzes e sombras e, muitas vezes, ocultamos o nosso lado pecador para apontar os pecados dos outros.

A armadilha não funciona, todos vão embora, exceto Jesus e a mulher adúltera: a miséria e a misericórdia(S. Agostinho). Jesus, então, se dirige à mulher e diz: “Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais”. A vida renasce graças a uma palavra que não condena. Para os fariseus a mulher era somente uma adúltera. Para Jesus, a mulher é uma possibilidade de graça que ainda não desabrochou. Vai, e de agora em diante não peques mais é um ato de confiança na possibilidade de um ser humano, mas, sobretudo, nas possibilidades de Deus.

Finalmente, o relato de hoje nos leva a pensar que os gestos e as palavras de Jesus vão além do fato de revelar a hipocrisia e maldade dos escribas e fariseus. O ponto é (e isso nos traz ao contexto da Quaresma que estamos vivendo) para enfatizar que, mesmo quando cometemos pecado, Deus nos concede a oportunidade de arrependimento, para que retomemos o caminho da conversão na direção de Deus e dos irmãos. Jesus não nega a realidade do pecado. Ele nos convida à conversão. Esta é a sua mensagem desde o início do seu ministério: “O reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho” (Mc 1,15). São as mesmas palavras pronunciadas durante a imposição das cinzas, no primeiro dia da Quaresma.Precisamos construir pontes e revelar o amor de Deus à medida que estendemos nossas mãos aos pecados. A mulher adúltera não precisava de pedradas, mas de uma mão amiga que a ajudasse a se levantar. Jesus estendeu sua mão.

 

Dom João Carlos Seneme é bispo da Diocese de Toledo

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