Editorial

A perversidade da corrupção

O Brasil deve atingir nos próximos dias a marca de um milhão de infectados pela Covid-19, de acordo com dados oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde e secretarias estaduais. Desde o início da pandemia, há cerca de três meses, imagens de necrotérios e cemitérios lotados, filas para enterrar pessoas queridas, medo nas UTIs dos hospitais e os números crescentes de mortes assustam a população. O avanço para o interior segue em ritmo acelerado.

Nesse momento tão crítico, de milhares de famílias enlutadas, de dor, de angústia, os governos de todas as esferas são fundamentais para amenizar o sofrimento das pessoas, ofertando-lhes, ao menos, o acesso à saúde pública com qualidade. E na maioria dos casos, parece que os governantes têm acertado, destinado recursos para a ampliação de seus sistemas de saúde para que todos possam ser atendidos caso necessitem.

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Mas no Brasil a corrupção não tem escrúpulos. Corruptos não olham para as filas, desprezam o sofrimento alheio, numa escala de menosprezo que só aumenta por conta da crise sanitária que o mundo vive. No Brasil, a cada três dias uma nova operação da polícia tem como alvos contratos supostamente irregulares na destinação de recursos públicos que deveriam ser direcionados no combate à Covid-19. As ações já atingem governos de seis Estados – Amapá, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia e Santa Catarina -, além de Distrito Federal.

As investigações ainda estão em curso, muitos acusados devem ter o direito de se defender, nada foi provado, mas, de acordo com o histórico do país, já calejado que o povo é, muito provavelmente esses esquemas sejam de fato comprovados.

De acordo com as investigações, mais de R$ 1 bilhão já foi para o ralo, na conta da corrupção, isso tudo em menos de três meses de pandemia. E outros tantos esquemas podem permanecer acobertados por muitos anos ou simplesmente nunca serem descobertos. Não há como saber exatamente o que está indo para a saúde e o que está indo para o bolso de corruptos e corruptores nas esferas pública e privada.

Constatações de corrupção geram repulsa em qualquer ocasião, mas são ainda mais intragáveis nesse momento tão difícil e desafiador que o país se encontra. Se apropriar de dinheiro público é um crime cruel, mas retirar recursos que seriam necessários para combater a pandemia e, com isso, poder contribuir em primeiro grau na morte de pessoas, é asqueroso, nojento e deve ser punido exemplarmente.

As forças policiais e o Ministério Público precisam fazer sua parte: investigar para descortinar toda e qualquer ação criminosa contra a saúde pública. Infelizmente maçãs podres sempre vão existir, mas é preciso encontrá-las e retirá-las do cesto antes que mais estragos ofereçam. Que os bons não paguem pelos maus, mas especialmente que os maus paguem!

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