Tarcísio Vanderlinde

A radicalidade dos essênios

Com relativa segurança é possível afirmar que a sociedade judaica à época em que viveu Flávio Josefo era mais complexa do que aquela que descreveu. Os judeus cristãos, por exemplo, só aparecem indiretamente em seus escritos. Já outros grupos como fariseus, saduceus e essênios receberam maior atenção.
Fariseus e saduceus surgem nas narrativas bíblicas conspirando contra Jesus ou fazendo a ele perguntas capciosas. Já os essênios, não aparecem nos textos sagrados a não ser por análise hermenêutica de especialistas em assuntos de natureza bíblica ou histórica.
Para o historiador Efraim Rushansky, que nos acompanhou nas andanças pela Terra Santa, o homem que aparece carregando um pote de água no capítulo 22 do evangelho de Lucas, e que indicou o lugar onde poderia ser realizada a última ceia de Jesus com os discípulos, era essênio.
A explicação para a identificação do personagem do pote como essênio, possivelmente amigo de Jesus e de seus discípulos, é relativamente simples. O homem realizava uma tarefa essencialmente destinada às mulheres. A atividade porém, era encarada com normalidade na comunidade dos essênios que se localizava em Qumran, no deserto da Judeia.
Por motivos religiosos, essênios mantinham distância de fariseus e saduceus. A descrição que Josefo faz dos fariseus e saduceus contudo, pode causar estranhamento em relação a postura conspiracionista destes grupos registrada nos evangelhos.
Para Josefo, “a maneira de viver dos fariseus não era nem mole nem cheia de delícias; era simples”. Eles se apegavam obstinadamente ao que se persuadiam dever abraçar. Honravam de tal modo os velhos que não ousavam nem mesmo contradizê-los. Atribuíam ao destino tudo o que acontecia, sem, todavia tirar ao homem o poder de nele consentir.
Já para os saduceus, as almas morriam com os corpos, e a única coisa que seria necessário fazer era observar a lei. Considerava-se um ato virtuoso não querer se exceder em sabedoria aos que tinham por ofício ensinar.
Quanto aos essênios, sua radicalidade é destacada por possuírem os bens em comum, sem que ricos tivessem maior parte do que os pobres, entregando todas as coisas, sem exceção, à providência divina. Efetivamente um jeito subversivo de vida que causa arrepios numa sociedade estimulada a acumular mais do que a dividir.
Os essênios achavam que se deveria fazer todo o possível para praticar a justiça. Sua virtude, conclui Josefo, “é tão admirável que supera em muito a de todos os gregos e os de outras nações, porque eles fazem disso todo o seu empenho e preocupação, e a ela se aplicam continuamente”.

O autor é professor sênior da Unioeste
tarcisiovanderlinde@gmail.com

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