Arno Kunzler

A renúncia do papa

A notícia bombástica desta semana, que pegou todos de surpresa, foi a renúncia do papa Bento XVI. Um mistério guardado a sete chaves, uma notícia em circunstâncias que só “Deus” e o papa podem ter conversado a respeito.
Todos sabemos que algo nesse nível é difícil de segurar, especialmente quando se trama ferrenhamente a substituição de um papa, cujo poder, embora não economicamente, mas em importância, é maior que da maioria dos chefes de Estado. Logo, pode-se compreender como esse “segredo” foi tratado dentro do Vaticano.
A despeito das especulações e até das surpreendentes críticas que de repente surgem contra a pessoa e o papado de Joseph Ratzinger, o gesto deve ter sido absolutamente consciente e solitário.
Consciente porque o papa acompanhou o martírio de João Paulo II, cujo mandato foi cumprido com a saúde do papa completamente debilitada. Algo de dar pena, quando de suas aparições.
O cardeal Ratzinger era o articulador mais próximo das ações da Igreja Católica, especialmente nos últimos anos do papado de João Paulo II, que definitivamente não tinha saúde e nem condições físicas para governar a Igreja presente em tantos países e já em crise.
O catolicismo vive uma intensa crise, não só de perda de fiéis mundo afora, especialmente na Europa, onde as pessoas, por vários motivos, deixam de frequentar as Igrejas, como de pessoas que optam por outras religiões, atraídas pelo dinamismo da comunicação das religiões menos tradicionais.
Dentro do próprio catolicismo, os movimentos contribuem para azedar as relações entre os que comandam a Igreja, têm os que acham que o comportamento da Igreja diante de questões importantes que envolvem seus fiéis é retrógrado e os que acham que a tradição e os dogmas são “imexíveis”. Assim, a tradicional Igreja Católica sobrevive aos séculos, dividida, questionada, atacada, mas sobrevive a todas às mudanças comportamentais e também às inovações tecnológicas.
O catolicismo, por ser tradicional e conservador, ainda se adapta melhor aos diferentes tipos de pessoas que procuram a Igreja basicamente para os momentos solenes da vida e da morte, como batismo, casamento e as solenidades fúnebres.
É conhecida por ser liberal, não cobra dos seus fiéis condutas tão rígidas quanto ao dízimo e à frequência.
Assim, mantém, apesar das estatísticas negativas dos últimos anos, sua influência especialmente nos países latinos.
Mas é certo que a Igreja precisa e vai mudar nos próximos anos, se quiser continuar sendo essa referência para os cristãos.
Se durante oito anos pouco se deu ouvidos aos apelos do papa, esses últimos 15 dias podem ser completamente diferentes. Cada aparição, cada gesto, cada palavra tem muita profundidade.
Não vivemos ainda na era moderna, com a igreja sob o comando de um papa sainte, que tem poucos dias de papado.
E suas palavras, à medida que findam os programas oficiais, são cada vez mais ácidas, dirigidas ao interior do clero.
O endereço é bem claro, vai direto contra aquilo que combateu como cardeal e como papa: o exibicionismo. Contudo, é justamente isso que tem feito das religiões não tradicionais o grande atrativo de fiéis.
Então, como combater o exibicionismo da era da televisão, com uma conduta sugerida pelo papa, humilde e discreta?
Esse deve ser o grande desafio dos próximos dirigentes da Igreja: conciliar os dogmas e a tradição, com o exibicionismo que beira à fantasia, em alguns casos.
O Vaticano precisa ser reciclado, mas se nem João Paulo II conseguiu fazer isso, quem conseguirá?

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