A revolução das bicicletas brancas

 

No seu livro de memórias recém-lançado, “Quem cria, nasce todo dia”, o arquiteto e ex-governador do Paraná Jaime Lerner recorda, na crônica “A beleza que cura”, o dia em que recebeu um prêmio de reconhecimento profissional do governo holandês, entregue em Amsterdam pelas mãos da rainha Beatriz.

“Apanhei um táxi e quando estava pagando a corrida vi o importante advogado Theo Bremer chegando alinhado para a cerimônia, montado em sua bicicleta. Ele saltou da sua magrela, a estacionou em frente ao Koninklijk Paleis de Amsterdam e entrou simplesmente e imponente, carregando consigo os significados do progresso e de uma cidade que sabe se locomover em qualquer circunstância”.

Embora não fosse o tema principal da crônica, ao recordar a chegada do advogado a uma importante cerimônia, Lerner chama a atenção sobre o quanto é incomum, para nós brasileiros, ver uma pessoa ir a um evento (chique ou não) pedalando.

 

 

Já em Amsterdam cenas como essas são corriqueiras. A cidade conseguiu, ao longo das últimas décadas, educar a população sobre as vantagens de se optar pelas bicicletas ao invés dos carros como o principal meio de transporte. Conforme estatísticas recentes, em Amsterdam, onde vivem 800 mil pessoas, existem cerca de 880 mil bicicletas – número quatro vezes maior do que o total de carros. Nos últimos 20 anos, as viagens de bicicleta cresceram 40%. Atualmente, 32% de todos deslocamentos dentro de Amsterdam são feitos de bicicleta, contra apenas 22% das viagens de carro.

O embrião dessa revolução, que transformou Amsterdam na capital europeia das bicicletas, completa em 2015 cinquenta anos. E o inusitado é que o início desta mudança – verdadeiro exemplo para o mundo – está diretamente associado ao Provos (de provocadores): um grupo sem líderes, constituído por algumas centenas de jovens anarquistas, beatniks, estudantes, artistas, desocupados e malucos em geral, que entre 1965 e 1967, com seus protestos contra a Família Real, os carros e a ordem estabelecida, fizeram Amsterdam viver momentos de caos.

 

 

Juntando arte, política e um punhado de vandalismo, os Provos conquistaram um lugar na história dos movimentos subversivos de vanguarda do século XX. Há quem os considere como os legítimos pais da contracultura hippie. É o que afirma Matteo Guarnaccia, autor do livro “Provos: Amsterdam e o nascimento da contracultura”, editado pela primeira vez no Brasil em 2001 e relançado neste ano pela Editora Vendeta.  Escreve o autor que:

“(os Provos) compreenderam que, no mundo moderno, o instrumento de luta mais temível já não é a dinamite, mas a imaginação. Com imaginação, é possível arrebentar os planos de controle social, expor o verdadeiro rosto da benévola sociedade de consumo, cutucar e ridicularizar o poder reivindicando o direito de todo o ser humano de gerenciar a própria vida”.

 

 

Entre os momentos mais tumultuados protagonizados pelos Provos nos dois anos em que existiram estão os protestos durante o casamento da princesa Beatriz (aquela que anos mais tarde se tornou rainha e homenageou Jaime Lerner, no episódio narrado no início do texto). Em 10 de março de 1966, os Provos revoltaram-se durante a cerimônia de casamento da herdeira da coroa com o diplomata alemão Claus von Amsberg, pois quando jovem ele esteve integrado ao exército nazista de Hitler. Os alemães durante a Segunda Guerra Mundial teriam sido responsáveis pela morte de cerca de 100 mil holandeses.

Bombas de fumaça, arruaças, publicação de manifestos, quebra-quebra, confrontos com a polícia: os Provos declararam a data de 10 de março de 1966 como o “Dia da Anarquia”. O espetáculo provocador teve ampla cobertura da imprensa, que proporcionou uma propaganda gigante gratuita para os Provos. [Quase uma década mais tarde, a banda Sex Pistols e seu empresário, Malcolm McLaren, usariam muitas táticas semelhantes a dos Provos para se promoverem com a polêmica durante as comemorações de 25 anos da coroação da Rainha Elizabeth II em 1977, em Londres – Inglaterra].

 

 

Mas, o que marcou definitivamente a história dos Provos foi o projeto das bicicletas brancas. Numa crítica radical ao automóvel, o grupo defendia a utilização de bikes como alternativa ao caos e à violência no trânsito. A ideia consistia em espalhar bicicletas pintadas de branco (a cor oficial dos Provos) por Amsterdam. Elas ficavam disponíveis, gratuitamente, para o uso de qualquer pessoa que, após chegar até o local desejado, simplesmente abandonava a bicicleta, que ficava outra vez à disposição de quem precisasse.

A ideia, que hoje seria elogiada como social e ecologicamente correta, não foi vista dessa maneira pelas autoridades holandesas. “A resposta da polícia à apresentação do projeto é imediata e ridícula: confiscam cerca de 50 bicicletas brancas pela cidade, com a desculpa de que, não estando trancadas com cadeados, sua presença representa um estímulo ao furto. Na prática, é a polícia que os rouba, já que não irá mais devolvê-las aos legítimos proprietários que reivindicarão sua devolução: numa sociedade em que vigora a propriedade privada, o que é oferecido gratuitamente se torna ilegal e antissocial”, analisa Matteo Guarnaccia no livro sobre os Provos.

 

 

No livro, o autor reproduz um longo artigo publicado na edição número 9 da revista do grupo, no qual os Provos justificam o porquê do projeto das bicicletas brancas e de sua aversão aos carros. Entre outros argumentos, eles afirmam:

“O ambiente social das cidades é ameaçado pela caótica explosão do trânsito que, em si, nada mais é do que ridicularmente levar às últimas consequências o direito de propriedade. O número de carros estacionados é cada vez maior, sempre maior do que daqueles em movimento. O uso do automóvel perdeu sua vantagem maior: fornecer um transporte rápido de um lugar a outro. O depósito de propriedades privadas em solo público (o estacionamento, como se costuma chamá-lo) engole não apenas o espaço destinado ao fluxo do trânsito, mas vai também devorando, dia após dia, pedaços cada vez maiores de espaço vital. Só se pode obter um uso eficiente do veículo a motor mediante a utilização coletiva do número total dos carros, e esse total deve ser limitado ao número realmente necessário.”

Os Provos decidiram encerrar suas ações em 1967, antes que suas provocações se tornassem banais e fossem assimiladas pela população e autoridades. Porém, o projeto das bicicletas brancas ficou definitivamente marcado na memória de Amsterdam.

 

 

Quando a histórica crise do petróleo da década de 1970 jogou o preço dos combustíveis nas alturas em todo o mundo, a cidade passou por uma ampla reformulação no seu sistema de trânsito. Primeiro foi a implantação do domingo sem carros. Logo depois, a construção de ciclovias e campanhas de conscientização, que não só estimularam o uso frequente de bicicletas como reduziram drasticamente o número de mortos no trânsito.

De lá para cá, a cultura das bikes em Amsterdam nunca mais parou de evoluir. Uma vitória gigantesca dos Provos, que na década de 1960 foram taxados de malucos (e os caras eram doidões mesmo!), quando defenderam que as bicicletas deveriam ter prioridade no trânsito, ao invés dos carros.

Aqui no Brasil, mesmo com um movimento crescente em favor das bicicletas, ainda estamos longe de alcançar o modelo holandês para a gestão da mobilidade urbana. Basta lembrar a “guerra” travada em São Paulo entre motoristas e ciclistas após a instalação de ciclofaixas. Há poucos dias, no Rio Grande do Sul, o prefeito de Montenegro foi cassado após a construção de uma ciclovia na área comercial da cidade.

 

 

Mas também temos exemplo legais como o BikePoa, serviço de bicicletas públicas de aluguel em Porto Alegre, lançado em 2012. Com 40 estações espalhadas pela Capital gaúcha, ele disponibiliza mais de 400 bikes que podem ser alugadas para deslocamentos pelas universidades, pontos turísticos, polos de atratividade, além de estações de transporte público. Curitiba, entre outras cidades do país, também conta com um serviço semelhante. Tudo muito parecido com o projeto dos Provos, tirando o fato de que ao invés de alugadas, as bicicletas brancas eram gratuitas e não pertenciam a ninguém.

Que tal ser um provocador: experimente trocar o seu carro pela bicicleta também! Nem que seja de vez em quando. É barato, divertido, saudável e muito fácil. Como assegura o autor Matteo Guarnaccia: assim como nadar e fazer amor, andar de bicicleta está programado em algum ponto de nossos genes: uma vez que se aprendeu, é impossível esquecer”.

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