Brincando na Praça 2019
Elio Migliorança

ACERTOS, DESACERTOS E OS PORQUÊS

O brasileiro tem paixão por três coisas: futebol, religião e política. Se queres uma discussão por um bom tempo, seja numa sala de aula, na roda de amigos ou em reunião familiar, basta abordar um dos temas e começar a defender uma ideia. Não é diferente quando os temas são abordados nesta coluna semanal. Há leitores que adoram uma polêmica, uns detestam política ou futebol, e há aqueles que dizem que religião não se discute, se vive. Sou defensor intransigente da ética no serviço público e isso provoca nos leitores as mais variadas reações. Vão do apoio ao ódio, do aplauso à vaia. Mas sei reconhecer os méritos de quem ocupa um cargo e o desempenha com competência e seriedade.
Na semana passada tive uma grande decepção. Ao serem divulgados os nomes dos senadores que foram beneficiados com os tais “atos secretos”, lá constavam senadores do PMDB, DEM, PT, PDT, PTB, PSDB, PR, PRB, PSB, um total de 37 senadores. Isto significa que são todos farinha do mesmo saco. Que não há partido do governo ou contra o governo. Na hora de beneficiar-se, o interesse pessoal fala mais alto e, como disse aquele deputado, “o povo que se lixe”, ou melhor, que pague a conta. Já manifestei minha frustração por ter acreditado que o PT faria um governo diferente e na prática ter descoberto que ele foi mais igual do que qualquer outro. Igual em tudo: na corrupção, no inchaço do setor público, no nepotismo, na falta de ética, na formação de quadrilhas que assaltam das mais diversas formas os cofres públicos e na mentira ao negar o que todos estão vendo. Contudo, há muitos acertos no governo Lula. Os financiamentos agrícolas estão acessíveis a todos e a juros favoráveis. O seguro agrícola, uma histórica reivindicação do setor, está cada vez melhor, garantindo o reembolso dos investimentos ou até garantindo uma renda mínima. A economia está estabilizada, a inflação sob controle, os juros oficiais cada vez menores, o salário mínimo nunca teve um valor tão expressivo em dólar, e a nossa credibilidade nunca esteve tão alta na esfera internacional. Há, entretanto, alguns “porquês” que não calam e precisam ser perseguidos insistentemente para construir um futuro cada vez melhor. Porque não se fez ainda a reforma política? Porque não permitir que se investigue todas as empresas públicas alvo de denúncias?
Se a população ficou estarrecida com a prostituição política instalada no Senado, não faz nem ideia do estrondo ensurdecedor em que se transformará a CPI da Petrobrás quando forem abertas as caixas pretas da estatal. Porque não fazer uma reforma tributária com redução de impostos para facilitar a vida da população, se temos sobras que nos permitem emprestar ao FMI? Porque as obras do PAC andam a passos de tartaruga e as propagandas à velocidade da luz? O governo Lula, com o apoio popular que tem, perde a grande e histórica oportunidade de passar este país a limpo e ficar na história como o maior estadista de todos os tempos. Prefere gravitar ao redor do próprio umbigo e servir aos “companheiros”, ao invés de servir ao país e às gerações do futuro. O político se preocupa com a próxima eleição, o estadista com a próxima geração.

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