Brincando na Praça 2019
Elio Migliorança

ARAME FARPADO

Relatos históricos mostram que desde o descobrimento do Brasil até hoje certas coisas são incompreensíveis por aqui. De uma delas fui testemunha. Como ocorre com milhares de pessoas, resolvi aproveitar a chance de comprar no exterior a cota permitida por lei. Pelas normas de domínio público, todos sabem que armas, drogas, pneus, cigarros, medicamentos e pesticidas agrícolas são proibidos. Os demais produtos são permitidos até US$ 300. Isso é o que todos imaginamos. Mas não é assim. Arame farpado também é proibido, mesmo dentro da cota. E será confiscado pela Receita Federal. Isso mesmo. Foi o que aconteceu. O arame farpado foi colocado na clandestinidade pelo governo brasileiro. O que não consigo entender é: por quê?
Bem, após este episódio, começaram as suposições, exercício de imaginação para descobrir os motivos desta proibição.
Hipótese 1: o arame farpado pode conter produtos tóxicos e nocivos à saúde, como outras drogas que já conhecemos. Talvez não seja biodegradável e, ao se decompor, cause danos ao meio ambiente.
Hipótese 2: devido ao sem número de denúncias envolvendo o Senado Federal, os arapongas (agentes secretos) do Senado descobriram que havia um movimento organizado para trazer ao Brasil grande quantidade de arame farpado e cercar o Congresso Nacional fazendo dele um grande campo de concentração, ou melhor, um presídio de segurança máxima, então proibiram a importação e estão controlando a venda do produto em território nacional.
Hipótese 3: há o temor de que ele possa ser utilizado como arma. O rolo seria cortado em pedaços de um metro cada, e distribuído à população para bater em todos os políticos denunciados por corrupção. Muito sangue seria derramado.
Hipótese 4: o dono ou donos das fábricas de arame farpado no Brasil contribuíram generosamente com a campanha de políticos e agora são beneficiados com esta proibição para favorecer a venda do produto de suas fábricas dentro do Brasil sem a concorrência do produto importado.
Depois de levantar estas suposições, ficou uma grande constatação. A legislação permite trazer até dois litros de whisky, mas não posso trazer um rolo de arame farpado. É isso aí. Encher a cara eu posso, trabalhar não. E olhe que dois litros de whisky do bom custam mais do que o arame. É verdade que com o whisky eu me tornaria mais semelhante a alguns políticos do que com o arame farpado. Isso tudo considerando que as compras feitas estavam bem abaixo do valor permitido pela cota de US$ 300.
Este é outro fato discutível. Considerando os milhões de reais gastos no vizinho país a cada semana, por que não criar uma zona franca do lado de cá na cidade de Guaíra? Seria uma compensação pela perda das Sete Quedas, milhões em investimentos, emprego para brasileiros e o lucro em território nacional. Nada contra os funcionários da Receita Federal que apreenderam a mercadoria, afinal, são pagos para cumprir a lei. A culpa é de quem fez uma lei estúpida, ideia de jegue, que não tem lógica nenhuma. Ou se pode comprar o valor da cota ou então que se proíbam simplesmente todas as compras. Mas no país dos cartéis e coronéis, tudo é possível.

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