Arno Kunzler

Bebianno – o lado positivo

O caso Bebianno foi bom para o governo Bolsonaro porque o presidente descobriu em tempo que estava com inimigo dentro de casa.

Tirá-lo custou uma exposição desconfortável, mas certamente muito menor do que mantê-lo sob desconfiança de todo o staff do governo.

Ao revelar as conversas que teve com o presidente, Bebianno mostrou o lado “leviano” que estava a serviço do mal, ou para obter vantagem própria, ou para favorecer quem o presidente não queria.

Como ele mesmo revelou nas conversas, sua presença já não era permitida nas reuniões de quartas-feiras, quando o alto comando do governo discutia suas estratégias.

E pelo que indicam as conversas, não por nada, ele realmente poderia causar um grande estrago se soubesse mais coisas do governo.

Bom para o governo que o episódio está encerrado.

Ruim para o governo é a repercussão disso, primeiramente no Congresso, onde o governo negocia votos para aprovar seus projetos.

E, diga-se, projetos desgastantes para quem vota.

Deputado nenhum quer votar reforma da Previdência, quem vota sempre perde, ainda que todos saibam da sua necessidade.

Em segundo lugar, foi ruim para o governo essa exposição sobre a mídia, a opinião sobre a Rede Globo.

Obviamente que os seguidores mais contundentes do presidente aplaudem qualquer manifestação contra a Globo, ou a chamada “grande mídia”.

Mas, sinceramente, é pólvora para os adversários do presidente. Expor essa intenção de retalhar a Rede Globo é um gesto desnecessário para um presidente do país.

Tanto que seu porta-voz veio a público dizer que o presidente tem apreço aos veículos de comunicação… tentando minimizar o efeito do diálogo.

É obvio que ninguém gosta de críticas. Lula não gostava. Dilma não gostava. Temer não gostava e Bolsonaro não vai gostar.

Mas um governo democrático, mesmo que faça tudo certo, precisa de elogios e, principalmente, de críticas.

As democracias se fortalecem nos embates políticos entre situação e oposição, normalmente através da imprensa.

Sinceramente, não sei se as mídias sociais conseguirão cumprir esse papel.

Parece que elas têm enorme poder para fazer ataques, desmascarar situações, proliferar versões e desconstruir imagens públicas. Mas, conteúdo para ser discutido e ajudar o cidadão a formar sua opinião, mediante a leitura de reportagens e comentários de pessoas de diferentes opiniões e com amplo conhecimento, isso vai fazer falta.

 

O autor é jornalista e diretor do Jornal O Presente e da Editora Amigos da Natureza

arno@opresente.com.br

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