Elio Migliorança

Chovendo no molhado

 

Escrever sobre o assassinato dos estudantes em Suzano (SP) por dois jovens que também morreram é como chover no molhado. Já foi escrito muito, alguns textos com colocações louváveis, enquanto outros rechearam de abobrinhas seus escritos, responsabilizando estes ou aqueles sem chegar a uma conclusão plausível.

Estou consciente do risco de abordar este tema, mas não quis omitir-me e resolvi colocar meu ponto de vista, baseado na experiência acumulada ao longo de 35 anos de convivência com estudantes de todos os níveis e classes sociais, exercendo minha profissão de professor.

Algumas pessoas atiraram em todas as direções na tentativa de identificar os culpados pela atitude criminosa dos jovens assassinos. O que posso dizer é que existem atitudes que não possuem uma única causa e muitas vezes não possuem uma explicação lógica, por mais que se busque no passado dos jovens um fator que tenha desencadeado aquele processo criminoso. Conheci pais que eram exemplos para a sociedade enquanto um ou mais filhos eram baderneiros, irresponsáveis e péssimo exemplo para os demais, tipo mente criminosa. Também conheci pais quase bandidos enquanto os filhos eram o que se pode chamar de o suprassumo da dedicação, respeito, esforço e responsabilidade social. Às vezes as diferenças na própria família eram tão gritantes que a gente olhava, não entendia e não conseguia explicar.

Atribuir a culpa à família dos assassinos pelo bárbaro crime é uma temeridade. Nunca conheci um pai ou uma mãe cujo sonho fosse ter um filho criminoso. Pode ser que tenham falhado na educação dos filhos, por ignorância ou por falta de orientação que pudesse ajudar na formação do caráter da criança. A formação de uma criança envolve muitas e complexas variantes: a família, a comunidade, a escola, a igreja e o convívio social. Na minha opinião, o espetáculo midiático desencadeado a partir de um crime bárbaro dessa natureza pode ser uma das causas, aquela necessidade que algumas pessoas possuem de serem vistas e admiradas pelos outros, serem o centro da atenção na televisão e nas mídias sociais, escrevendo seu nome para sempre, mesmo que de forma negativa, como é o caso, talvez ajude a explicar o gesto daqueles jovens que, mesmo sabendo que morreriam, tinham a certeza de estar nas mídias e provocar espanto e comoção.

Há outros fatores que podem ter influência, como frustração por não se realizarem profissionalmente, incapacidade em administrar fatos ou pessoas que os deixavam com raiva, falta de recursos para fazer suas vontades, a impunidade e uma deficiência na formação do caráter que nunca descobriremos exatamente em que ponto e quem foi responsável por isso. Talvez até uma soma de ressentimentos por agressões sofridas e nunca digeridas, mas todos os argumentos continuam dentro da subjetividade, pois não saberemos qual foi o ponto cego que desencadeou isso.

E a nova tragédia criminosa na Nova Zelândia, transmitida ao vivo nas redes sociais pelo criminoso, é prova da magia que elas exercem sobre uma mente criminosa. E como nós podemos ajudar a evitar novos crimes assim? Seja um cidadão honesto, responsável, cumpra seus deveres, pague suas contas e respeite os demais. Pode não evitar um crime, mas você nunca será motivo de raiva ou mau exemplo que outros possam seguir.

 

O autor é professor em Nova Santa Rosa

miglioranza@opcaonet.com.br

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