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Elio Migliorança

CRUCIFICADO DE NOVO

Os cristãos celebram nesta semana os momentos mais importantes de sua história, revivendo os fatos que culminaram com a crucificação e morte de Jesus Cristo. Na semana que passou os brasileiros foram colocados no centro de um dos julgamentos mais comentados dos últimos anos, cujos fatos e desfecho todos conhecemos. Este júri parecia estar dentro de casa via TV. Há muitas diferenças entre os dois julgamentos. Neste o júri durou uma semana. No de Jesus foi um dia. A pena para o casal Nardoni foi de 30 e 26 anos, dos quais vão cumprir mesmo um terço. A sentença para Jesus foi a morte. E que morte. Segundo a fé cristã, esta devia ser a única vez em que Jesus morreria crucificado. Mas não foi. O próprio Jesus em determinado momento afirma aos discípulos: “tudo o que fizerdes a um destes pequeninos, a mim o fazeis”.
Os pequeninos a quem ele se referia somos nós seres humanos. E assim sendo, ele continua sendo crucificado nos milhões que morrem de fome no mundo pela estrutura injusta que empobrece muitos e enriquece poucos. Nos doentes que enfrentam filas na saúde pública e acabam morrendo por falta de atendimento. Nos injustiçados que procuram justiça e encontram um Judiciário moroso e de difícil acesso que privilegia quem tem dinheiro para pagar um bom advogado. Crucificado nos menores abandonados à própria sorte, vítimas de famílias desestruturadas e pais irresponsáveis que não lhe deram dignidade e nem meios de sobrevivência. Nos que estão injustamente nas prisões por falta de um julgamento justo. Nos idosos abandonados pela família ou naqueles esquecidos nos asilos sem o carinho dos familiares. Crucificado nas crianças vítimas da pedofilia e de outras formas de abuso sexual. Nas prostitutas que tiveram que vender seu corpo para comprar alimento para sobreviver. Crucificado nas incontáveis vítimas de políticos corruptos, que roubando o dinheiro público estão roubando a saúde, educação, segurança e dignidade daqueles que dependem dos serviços públicos para conquistarem a cidadania.
Jesus também está crucificado de novo nas vítimas dos saqueadores em áreas de terremotos, saqueadores estes que formam quadrilhas e se aproveitam da desgraça alheia para roubar o pouco que restou. Não nos esquecendo das vítimas de empresários inescrupulosos, que colocam preços exorbitantes sobre seus produtos, aumentando de forma indecente seus lucros. Crucificado nos pais cujos filhos são vítimas da violência e da droga que estraga a saúde e destrói a família.
Todas estas situações de crucificação e morte seriam facilmente solucionadas se todos seguissem aquele provérbio que diz: “nunca faça ao outro aquilo que não queres que te façam”. E ponto final. Seria a solução fácil. Cada um fazer o que é certo, com ética e moral.
A todos os que ajudam a crucificar seus irmãos, não esqueçam que para você e para os outros é fácil arrumar desculpas, mas para Deus não existem desculpas. Se cada um fizer sua parte, teremos a solução para todos os problemas. Pensemos nisso quando estivermos acompanhando as celebrações da Semana Santa. 

* O autor é professor em
Nova Santa Rosa
miglioranza@opcaonet.com.br

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