Tarcísio Vanderlinde

Dalém do Jordão

Processos de desterritorialização e reterritorialização raramente são pacíficos. Em épocas diversas é possível elencar diversos exemplos pelo mundo. A desterritorialização da Iugoslávia em meio a uma guerra civil e genocídios durante a última década do século XX é um exemplo recente dos dolorosos processos de desterritorialização/reterritorialização.

As fronteiras do Brasil por volta do ano de 1500 eram muito diferentes das que existem hoje. O Oeste do Paraná, à época, era reino da Espanha e, até os anos de 1940, pasmem, a moeda nacional e a língua portuguesa eram praticamente desconhecidas na região. A “marcha para o Oeste” durante o governo de Getúlio procurou territorializar a região.

O livro de Josué detalha a territorialização de Israel por volta do ano 1400 a.C. O destaque indica a localização geográfica da terra que ficou como herança para meia tribo de Manassés: “Couberam a Manassés dez quinhões, afora a terra de Gileade, que está dalém do Jordão”. Em mapas antigos a área aparece muitas vezes como “Manassés Oriental”.

Passados 3400 anos, e após territorializações sucessivas decorrentes do domínio de diversos conquistadores, a terra de Manassés volta a ser notícia no incerto início do século XXI. A região se chama hoje “Colinas de Golã”, área inconsolidada no processo de reterritorialização do moderno Estado de Israel que renasceu dos escombros da 2ª Guerra Mundial.

Um dos responsáveis por popularizar expressões como territorialização, desterritorialização e reterritorialização é o geógrafo brasileiro Rogério Haesbaert. Numa conferência ministrada na Unioeste, ele afirmava desconhecer outro caso na História semelhante ao que estaria ocorrendo no tempo presente em Israel. Segundo ele, constitui caso muito peculiar manter territorialidade mesmo sem território por dois mil anos.

Quando visitei a milenar Jope, antiga cidade portuária às margens do mar Mediterrâneo, lembrei da fala de Rogério ao me deparar com um pote suspenso contendo uma árvore. Era uma espécie de bonsai. A árvore estava ali para lembrar os dois milênios de diáspora nos quais os judeus foram dispersos pelo mundo, ficando “suspensos” na condição de população sem território.

O ato da ONU que, em 1948, permitiu a formalização da região em dois Estados não impediu diversas guerras e conflitos. Territórios e territorialidades em clima de tensão estão em construção num lugar que muitos reconhecem como o principal palco da história da humanidade. A cada dia um novo acontecimento alimenta o clima de tensão. Agora, os olhos se voltam para além do Jordão.

Estrangulada por uma dolorosa guerra civil e contando com apoio bélico do Irã, Síria reivindica o território que lhe pertencia até a Guerra dos Seis Dias, em 1967. O final da história, com interesses explícitos do Irã, que sequer faz fronteira com Israel, ainda está para ser contado. É visível a existência de intenções mais profundas do que apenas uma disputa por fronteiras. Além disso, os conflitos no Oriente Médio costumam chamar mais atenção por causa da herança cultural que aquela região legou ao mundo. Da antiguidade ao presente, Israel continua produzindo notícias.

 

O autor é professor na Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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