Copagril

Daniel Johnston: loucuras de um gênio

 

O serviço de streaming por assinatura Netflix tem se mostrado uma excelente (e barata!) opção para quem procura filmes clássicos ou mais alternativos, que não são fáceis de encontrar em qualquer locadora ou que nem mesmo chegam a ser lançados em DVD no Brasil. E nesta semana, ao atualizar minha lista de filmes a serem vistos, tive a imensa satisfação de encontrar na Netflix o documentário “The Devil and Daniel Johnston – Loucuras de um Gênio” (direção de Jeff Feuerzeig, 2005), sobre a vida deste cantor norte-americano que se tornou uma lenda do cenário musical underground.

Não se sinta mal por nunca ter nem ao menos ouvido falar em Daniel Johnston. O cara é praticamente um desconhecido do grande público. Porém, talvez você já tenha ouvido algumas de suas canções regravadas por gente como Beck, Built to Spill, Mercury Rev, Tom Waits, Wilco, Flaming Lips, Yo La Tengo e Pearl Jam:

Casa do eletricista TRATAM. E ACESS.

 

 

Nascido em 1961 na Califórnia, desde a adolescência Daniel Johnston mostrava fortes inclinações artísticas. Desenhava, produzia filmes caseiros e escrevia músicas. No final dos anos 70 começou a registrar em casa suas canções de forma tosca em fitas cassete com um gravador comum. O estilo era folk (voz e violão ou voz e piano), mas a atitude era punk. Era tudo no melhor estilo faça você mesmo: gravar em casa, fazer cópias das fitas, desenhar as próprias capas e vendê-las os cassetes por aí.

Causou frisson no cenário alternativo dos anos 80, aparecendo em revistas especializadas em música e na MTV. Chegou a ir a Nova York a convite da turma do Sonic Youth, tocou na Meca do punk o CBGB. Queria ser famoso, mas tinha um problema. Maníaco-depressivo e esquizofrênico, sua genialidade andava de mãos dadas com a loucura. E, a partir da segunda metade dos anos 80, a loucura pareceu andar sempre um passo à frente da genialidade.

 

 

No documentário é relatado um episódio que parece ter catalisado a insanidade do músico. Durante um show dos caóticos Butthole Surfers, Daniel Johnston experimentou LSD e saiu da casinha, para onde nunca mais conseguiu voltar. Nas suas paranoias, fazia pregações, dizia exorcizar demônios e que era pra todo mundo tomar cuidado porque o demônio andava à solta por aí.  Num minuto o cara estava cantando e no outro estava lá no palco, chorando e falando sobre suas visões apocalípticas.

Seguiram-se temporadas longas em clínicas psiquiátricas, com breves retornos com tentativas de viver uma vida normal. Nestes intervalos o cantor produzia novas canções e fazia mais algumas apresentações. Ah, também escrevia cartas pedindo ao Beatles que voltassem a tocar para ser a banda de apoio dele…

 

 

No início dos anos 1990, Daniel Johnston já possuía uma pequena legião de fãs. Entre eles o mais famoso era Kurt Cobain, o líder do Nirvana que durante o auge da fama desfilava constantemente vestindo uma camiseta estampada com a capa do álbum “Hi, How Are You”, lançado em 1983 por Daniel Johnston. Ao verem Cobain vestindo a camiseta, muitos se perguntavam quem era Daniel Johnston.

A coisa cresceu ao ponto em que a Elektra e a Atlantic, duas gravadoras gigantes, disputaram um contrato com ele. A Atlantic venceu a queda de braço, pois na última hora Daniel Johnston desistiu de assinar com a Elektra – gravadora que, na visão do maluco, era controlada pelo demônio. Pior pra Atlantic, que amargou o fracasso do álbum “Fun”, lançado em 1994 e que vendeu apenas 5 mil cópias.

 

 

Assistir ao documentário “The Devil and Daniel Johnston” (já deu pra sacar o porquê – traduzido para o português – o filme se chama O Diabo e Daniel Johnston, né!) é mergulhar num mundo paralelo, onde as coisas mais bizarras acontecem. Vale a pena contar dois episódios.

Um ocorreu quando o cantor andava pela rua e surtou ao passar em frente a uma casa, afirmando que a senhora que lá vivia estava possuída. Ele tentou invadir a casa para expulsar os demônios e, assustada, a mulher se atirou do segundo andar, quebrando os tornozelos. Daniel Johnston foi preso e, em sua defesa, afirmou que foram os demônios que arremessaram a mulher pela janela.

Outro episódio, que quase causou a morte do músico e do pai dele, aconteceu logo após um show. Ambos voltavam para casa no pequeno avião monomotor pilotado pelo pai. Daniel lia um gibi do Gasparzinho, que trazia na capa uma imagem do fantasminha camarada saltando de paraquedas. O músico surtou em pleno voo e, achando que era o próprio Gasparzinho, quis saltar de paraquedas também. Como não tinha paraquedas no avião, o cara simplesmente tomou o controle do avião e desligou a aeronave, que caiu. Embora destruída, os dois não se feriram. Ao ver o pai do Daniel Johnston chorando compulsivamente ao contar essa história no documentário, dá para ter uma noção do quão traumático foi essa cena.

É senso comum pensar que a arte (a arte de verdade, por favor) tem um pé na loucura. Tem gente que acredita que ela é inspiradora, o que “justificaria” o uso de drogas no processo criativo de artistas. Para alguns, por um tempo até que a coisa funciona. Para outros, esse caminho é a perdição do artista.

 

 

Daniel Johnston, que pelo jeito pra sempre vai acreditar que o Diabo vive dentro da cabeça dele, precisa lidar com a insanidade que existe nele naturalmente . E sabe-se lá até que ponto a esquizofrenia influencia o seu trabalho. Há aqueles que, ao analisarem seus desenhos e suas músicas, divergem. Para uns, eles revelam uma alma torturada. Para outros, é a expressão de um ser que crê no amor.

Hoje, Daniel Johnston ainda se apresenta de vez em quando. Em 2013, passou por São Paulo. Vive uma loucura controlada, na maior parte do tempo.

Quem quiser assistir ao documentário, mas não é assinante Netflix, pode vê-lo na íntegra, logo abaixo no YouTube:

 

TOPO