Copagril
Elio Migliorança

DAS COISAS INCOMPREENSÍVEIS

O ano está no fim e embora digam que quanto mais velhos mais sábios, nem assim consegui a sabedoria suficiente para entender as incoerências daqueles que nos governam. Na semana que passou, o Senado finalmente aprovou a emenda constitucional nº 29, que fixou quanto os governos devem gastar com saúde. A proposta original estabelecia 10% para o governo federal, 12% para os Estados e 15% para os municípios. A maioria governista alterou o projeto, mas a palavra certa seria adulterou o projeto, porque isto foi uma patifaria contra aqueles que padecem nas filas do SUS. Para o governo federal é o que gastou no ano anterior mais o crescimento do produto interno bruto. Quando candidatos, todos dizem que saúde é prioridade um. Pelo visto agora o povo não merece 10% da arrecadação para cuidar da saúde. Há alguma coisa mais importante que saúde? Você venderia a sua? Como deputados, senadores, ministros e o alto escalão republicano não se tratam pelo SUS, parece pouco importar que o atendimento seja a cada ano uma versão piorada do ano anterior. O que fizeram foi a prova de que o discurso é um e a prática é outra. Na maior cara de pau, fixaram números para Estados e municípios, o que é muito bom, mas o governo federal traiu aqueles que confiavam em sua seriedade. Outra novela incompreensível atende pelo nome “Código Florestal”. Projeto que vaga qual fantasma pelo Congresso Nacional há muito tempo, agora finalmente aprovado no Senado, precisa voltar para nova votação na câmara. O presidente da câmara, em entrevista ao Globo Rural neste domingo, declarou que provavelmente só no ano que vem haverá tempo hábil para sua aprovação. Isto seria cômico se não fosse trágico. Quando se trata do próprio salário os deputados são tão ágeis e eficientes que, a toque de caixa, não precisam mais do que 10 minutos para aprová-lo. Mas quando se trata dos outros, do interesse dos que vivem da terra, há empecilhos de toda a ordem, criam-se dificuldades onde elas não existem, monta-se um circo e o carnaval corre solto para que a aprovação ocorra no último minuto como se fizessem um grande favor a quem paga seu salário, no caso nós todos. E apesar de tantas e cansativas discussões, o projeto ainda sai torto, porque os agricultores são obrigados a tantas coisas, mas os rios que passam nas cidades não precisam ser protegidos, lá o esgoto vai direto da privada para o rio, as casas podem ficar penduradas nos barrancos, tanto a água como a natureza podem ser assassinadas sem piedade. A única coisa que me consolou no final de semana quando meditava sobre estes temas foi a lucidez do povo paraense, que soube dizer não àquela ideia maluca e insensata de dividir o Estado do Pará em três partes. Sim, porque se Estados pequenos fossem a solução, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Sergipe deviam ser verdadeiros paraísos. Você consegue imaginar quantos novos cabides de emprego existiriam com dois novos Estados? Senadores, deputados federais, estaduais, tribunais de contas e de justiça, governadores, secretários estaduais e autarquias? Este “não” do povo paraense valeu uma economia de muitos milhões. Felizmente a lucidez falou mais alto.

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