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Elio Migliorança

Decisões equivocadas

A recente paralisação nacional revelou a face oculta de sucessivos equívocos na tomada de decisões que nortearam a economia nos últimos 30 anos. Nas andanças pelo mundo vi que os países mais desenvolvidos possuem algo em comum: há um projeto de país planejado para 30 ou 40 anos independente do governo de plantão. Mudam os governos, mas o projeto continua e os governantes precisam dar-lhe sequência. No Brasil não temos um projeto de país e sim projeto de governos. Cada um propõe o seu projeto e assim vamos reinventando a roda a cada quatro anos. Não que os projetos sejam ruins, mas não há continuidade, e, pior, o governo que entra faz questão de não dar sequência ou até destruir o que o anterior fez. E assim vamos andando em círculos e a roda do desenvolvimento fica cada vez mais quadrada.

Segundo o economista André Rocha, em artigo publicado na revista Valor Econômico, e que serviu de inspiração para esta reflexão, o Brasil adota um modelo econômico que agoniza, por ser um país de industrialização tardia que criou estatais para resolver o problema com políticas públicas que tentam consertar a histórica desigualdade social. Estas políticas públicas incluem saúde universal, programas de renda mínima, educação gratuita, aposentadoria para quem nunca contribuiu e outras benesses mais custam caro e como o governo não produz riqueza, apenas distribui o que coleta, cada concessão é mais um buraco no seu e no meu bolso para financiar os benefícios concedidos.

Quando a Constituição de 1988 foi promulgada com o apelido de “constituição cidadã”, logo os gastos públicos chegaram a patamares incontroláveis e sucessivos governos tiveram como única alternativa o aumento dos impostos. Quando o bom humor dos brasileiros desapareceu e não havia clima para novos tributos, o governo partiu para a última esperança de sobrevivência: o aumento da dívida pública. Hoje devemos mais de R$ 3,5 trilhões, um número que não cabe em qualquer calculadora e isso tem consequências desastrosas sobre a economia nacional.

Quando o governo financiava caminhões com recursos públicos a juros subsidiados, estava armando uma das bombas de efeito retardado que agora explodiu e desencadeou uma avalanche na economia nacional. Os agricultores que apoiaram a greve estão atordoados ao verem que uma das demandas dos caminhoneiros, a tabela com o preço mínimo do frete, elevou o custo do transporte inviabilizando a exportação. Em lugar nenhum do planeta o tabelamento de preços foi a solução para gerar desenvolvimento. A melhor alternativa ainda é a velha e conhecida lei da oferta e da procura que deverá por si regular o mercado. A redução de impostos para baratear o diesel terá que ser compensada com a elevação de outros, pois um governo que está na UTI, com um déficit previsto de R$ 159 bilhões, não pode se dar ao luxo de dispensar tributos.

A realidade assustadora está aí. O governo precisa reduzir gastos, cortar benefícios, reformar a previdência e, por tabela, conscientizar a todos que estamos a um passo do abismo. Mais um passo na direção errada e ninguém mais segura este país. É aí que voltamos à questão: precisamos de um projeto de país, com o sacrifício de todos e que seja respeitado, mesmo que à força pelos governos nos próximos 30 anos. Quem viver verá.

 

O autor é professor em Nova Santa Rosa

miglioranza@opcaonet.com.br

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