Elio Migliorança

DUAS FALAS, QUATRO SENTIDOS

Para os investigados da Operação Lava Jato foi uma semana de muita dor de barriga e noites de insônia ou, quiçá, de pesadelos. A operação salvação deflagrada pela Presidência da República tentando tirar Lula das mãos da Justiça no Paraná desencadeou a divulgação de gravações telefônicas que revelaram ao Brasil e ao mundo o que pensam alguns líderes políticos brasileiros. Cumpriu-se o que Jesus afirmou a seus apóstolos, como se vê no evangelho de Lucas, onde diz: “Porque não há nada oculto que não venha a descobrir-se, e nada há escondido que não venha a ser conhecido. Pois o que dissestes às escuras será dito à luz, e o que falastes no ouvido será publicado de cima dos telhados”.

A divulgação das escutas telefônicas geraram muitas reações, mas, de modo particular, duas delas foram as mais significativas porque diziam uma coisa para desviar a atenção do foco da questão. As falas em questão eram da presidente Dilma. Na primeira entrevista após a divulgação das gravações, respondendo à suspeita de que a nomeação de Lula para o ministério era para tirá-lo das mãos do juiz Sergio Moro, ela declarou: “prerrogativa de foro não é impedir a investigação, é fazê-la em determinada instância e não em outra. A troco de que eu vou achar que a investigação do juiz Sérgio Moro é melhor do que a investigação do Supremo? Isso é uma inversão de hierarquia, me desculpa. Eu não posso acrescentar mais nada a uma resposta dessas”. O que ela fez e não disse é que a intenção era exatamente esta, pois o Supremo Tribunal Federal, em seus 126 anos de história, condenou menos bandidos do que Sergio Moro só na Operação Lava Jato, a partir da qual foram 93 condenados que somam mil anos de penas e já recuperou mais de R$ 3 bilhões dos R$ 40 bilhões desviados.

Num evento realizado em Feira de Santana (BA) veio a segunda fala com duplo sentido, quando ela assim se pronunciou: “Grampo de Presidência da República é ilícito, previsto como crime na legislação. Presidente do Brasil ou de qualquer país democrático do mundo tem garantias constitucionais. Não pode ser grampeado, a não ser com autorização expressa do STF. Em muitos lugares do mundo, quem grampear o presidente vai preso se não tiver autorização judicial. Grampeia o presidente da República nos Estados Unidos e vê o que acontece com quem grampear. É por isso que eu vou tomar todas as providências cabíveis nesse caso”. O que ela não disse é que grampeado era o Lula, investigado na Operação Lava Jato e não o telefone da presidente da República. O que faltou ela explicar é o que aconteceria com o presidente dos Estados Unidos se ele telefonasse para um bandido ou tentasse nomeá-lo ministro para blindá-lo como ela tentou fazer por aqui.

O real sentido de cada uma das falas aqui reproduzidas era esconder que a nomeação de Lula para o ministério era exatamente aquela que todos temiam: tentar salvar-lhe o couro já que acreditava ter mais influência sobre o Supremo Tribunal Federal do que sobre a “República de Curitiba”, como Lula batizou os investigadores da Operação Lava Jato.

Aqui podemos estufar o peito, apontar para o juiz Sergio Moro e gritar: “este é bicho do Paraná. E o Brasil se faz com gente que faz”.

De agora em diante, alguns vão usar o telefone só para marcar encontro e de preferência no lugar errado.

 

Professor em Nova Santa Rosa

 

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