Dom João Carlos Seneme

Ele tem feito bem todas as coisas

Após a discussão com os judeus sobre as regras de pureza, Jesus se dirigiu a um território pagão; lá, ele curou a filha da siro-fenícia que tinha manifestado uma fé que Jesus teria gostado de encontrar entre seus compatriotas. Outros eventos são realizados em território pagão, especialmente na Decápole: a região era uma confederação de dez cidades gregas, situada a Leste da Jordânia. Eram cidades de cultura grega e não judaica. Este é o lugar onde o episódio acontece neste domingo, a cura de um homem duplamente enfermo: ele era surdo e mudo.

Vamos ao texto: Jesus saiu da região de Tiro, através da Sidônia, tomando a direção do lago da Galileia e foi para o território da Decápole, ou seja, um ambiente pagão. Trouxeram-lhe um surdo-mudo, e pediram-lhe que impusesse a mão sobre ele. Jesus o levou à parte, longe da multidão, colocou os dedos em seus ouvidos e, com a saliva, tocou-lhe a língua. Por fim, levantados os olhos para o céu, suspirou e disse: efatá! Isto é: abre-te! O gesto de levantar os olhos ao céu é clara: Jesus cura com o poder que ele foi dado pelo Pai.

Em cada milagre Jesus expressava algo diferente. Este homem, surdo-mudo, simboliza as dificuldades que todos nós temos para nos relacionar com os outros e de nos fazer entender. Este homem rejeitado e excluído é o símbolo do ser humano fechado a Deus, incapaz de ouvir sua Palavra e louvá-lo, de relacionar-se com ele.

O encontro com Jesus transforma radicalmente a vida desse surdo-mudo. Jesus abre-lhe os ouvidos e solta-lhe a língua (vers. 35), tornando-o capaz de comunicar, de escutar, de falar, de partilhar, de entrar em comunhão. Aqui vemos o amor, a proximidade de Jesus, a intimidade que ele oferece a esta pessoa marcada pela solidão e isolamento. Jesus se aproxima do homem, o conduz a lugar à parte, oferecendo a oportunidade para um encontro pessoal; relaciona-se com ele tocando seus ouvidos e sua língua.

Depois da cura, aquele homem, antes limitado pela doença, torna-se um homem novo. Esta transformação não depende somente de Jesus, é preciso que o homem aceite e deixe que Deus realize o milagre. É preciso fé. É preciso conversão.

No final, as testemunhas também participam e exclamam sobre Jesus: “tudo o que Ele faz é admirável” (vers. 37). Somos levados ao livro do Gênesis: “Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa”. Aceitar Jesus como o Filho de Deus é se tornar uma humanidade nova aberta a Deus, aos irmãos e à natureza. Novas relações se estabelecem, a possibilidade de um mundo novo sem tantas diferenças. Neste contexto os discípulos de Jesus têm como missão, seguindo os passos do Mestre, de libertar a humanidade da mudez e da surdez. Fomos criados para nos relacionarmos uns com outros.

A palavra de Jesus ressoa também hoje como um imperativo para mim, para você e todo o mundo: “efatá”, isto é, “abre-te”.

 

Dom João Carlos Seneme é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

 

 

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