Brincando na Praça 2019
Elio Migliorança

ESTÁ NO D.N.A.

Durante um pronunciamento na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a deputada Cidinha Campos “detonou” os colegas diante da possível indicação de um deles para conselheiro do Tribunal de Contas. E no pronunciamento ela usa uma frase chocante na qual afirma que a corrupção está no D.N.A. do brasileiro. Enquanto assisto à final da Copa do Mundo, satisfeito pela alegria de holandeses e espanhóis que disputam um título inédito, vou lendo os jornais do fim de semana e fico espantado ao saber que um levantamento da Controladoria Geral da União mostrou que 95% das licitações nos municípios brasileiros apresentam problemas. Os problemas apresentados apontam desvio de recursos e de equipamentos, preços superfaturados, pagamento por serviços não realizados e parentesco entre donos de empresas licitantes e o prefeito. Parece um pesadelo. Mas acordei do breve torpor e comecei a raciocinar. Ainda consigo fazer isso.
Quando o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou a paralisação de algumas obras do PAC por irregularidades, o presidente ameaçou o TCU e mandou seguir as obras. Já surgiram os primeiros sinais de que as obras para a Copa do Mundo terão prioridade, em determinados casos as licitações serão dispensadas, impacto ambiental fica em segundo plano, tem tudo para virar um buraco gigantesco onde não se vê o fundo. Uma das melhores leis já criadas, a Lei de Responsabilidade Fiscal, logo vai “pro brejo” porque o presidente vai autorizar os municípios sede da Copa a se endividarem mais do que a lei permite. Claro, não é ele que vai pagar a conta.
Se tudo isso vem de cima, de quem mais devia respeitar a Constituição, o que esperar dos prefeitos? Se o pai é malandro, como exigir decência dos filhos? 
Acho que a deputada Cidinha tem razão. A corrupção está mesmo no D.N.A. Tanto que a logomarca da Copa de 2014 ficou com a cara do Brasil. Pena que nela colocaram apenas três mãos. Deviam colocar umas quatrocentas. Para representar todos os que vão estar “metendo a mão”. Assim seriam lembrados os deputados federais, estaduais, donos de construtoras, a CBF & Cia.
Aquela data em vermelho na logomarca não devia ser azul, seguindo as cores da nossa bandeira? Ah, desculpe a pisada na bola, não lembrei que o MST devia ser homenageado aí, e como na logomarca não cabia o boné, a única chance foi avermelhar a data.
Isso aqui vai virar o samba do crioulo doido. E enquanto assisto a festa do final da Copa, já sou bombardeado com duas propagandas falando da esperança do brasileiro para a festa do hexa em 2014. Meu Deus, nós vamos pirar. Quem é que vai aguentar quatro anos sendo bombardeado deste jeito? O sociólogo brasileiro Demétrio Magnoli, quando perguntado sobre o futuro da África do Sul na pós-Copa, respondeu: depende do que a elite sul-africana vai fazer com a alegria popular gerada pela Copa, e acrescentou que grandes eventos não são financeiramente vantajosos para os países sede da Copa. 
Vamos mudar de assunto. Temos eleições logo ali. Vamos ouvir nossos candidatos falar de transparência. É tão bonito ouvir falar de transparência.

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