Brincando na Praça 2019
Elio Migliorança

FLEXIBILIZAÇÃO

O momento é de flexibilização. Fala-se disto nos meios empresariais, nos sindicatos, no setor produtivo e também no governo. Como minha capacidade intelectual também é flexível, fui ao dicionário e descobri que flexibilização é a capacidade de tornar-se flexível, e que flexível é o que se dobra ou curva facilmente. Que é brando, complacente, dócil. Então conclui que ser flexível é uma virtude, mas não da forma marota como ela está sendo proposta e praticada no setor público. A cada dia, em pequenas notas na imprensa, a ideia está sendo “vendida” para que a população a aceite como natural, sem revelar quais são as verdadeiras intenções dos autores. O governo tem pronta uma medida provisória que enviará ao Congresso Nacional para “flexibilizar” as exigências legais nas concorrências públicas das obras de preparação para a Copa do Mundo. Sem flexibilizar nada, já estamos cansados e enojados de tanto ouvir falar de corrupção, embromação, propinas e outras gatunagens. Se com todo o rigor da lei já acontecem tantas barbaridades premiadas com impunidade, imagine então no que vai virar esta terra abençoada por Deus quando se afrouxarem as rédeas da fiscalização. Aliás, até o insuspeito ministro Paulo Bernardo teve que reconhecer o recebimento de diárias indevidas no final de abril, quando estava em Curitiba, onde reside.
Diárias, para quem não sabe, é o valor que se paga ao funcionário público para custear as despesas de viagem e estadia quando viaja a serviço. E aí a pergunta que não cala: e se o jornal O Globo não tivesse denunciado o fato, os valores teriam sido devolvidos? E os ministros Ana de Hollanda, da Cultura, e Afonso Florence, do Desenvolvimento Agrário, também citados na reportagem, devolveriam?
Afinal, que governo desorganizado que não sabe onde andam seus ministros e ficam depositando dinheiro indevido? Ou esta é uma prática comum, resultado da “flexibilização” da ética no governo?
Enquanto escrevo este texto, leio que o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, insatisfeito com a taxa de desemprego medida pelo IBGE, que também é um órgão do governo, vai propor a criação no segundo semestre de outro indicador denominado Taxa de Emprego Real, a ser elaborado pelo próprio Ministério do Trabalho. Agora teremos, então, a flexibilização da verdade; se o governo não tem competência para fomentar a criação de novos empregos, vai publicar indicadores falsos, fabricados nesta nova onda em que tudo será flexível.
Semana passada, a Polícia Federal prendeu dezenas de funcionários públicos municipais, integrantes de uma quadrilha nacional que desviou, segundo a notícia, mais de R$ 100 milhões de recursos da saúde pública. São pessoas que, inspiradas no exemplo que vem de cima, flexibilizaram as contas bancárias transferindo recursos para os quadrilheiros, que embolsaram o dinheiro que podia salvar milhares de vidas humanas. Ou terá sido apenas um engano de quem forneceu o número da conta bancária?
O que não é flexível é a dor daqueles que padecem ou morrem por falta de atendimento. Se perdermos a capacidade de indignação com este tipo de coisa, estaremos caminhando para um precipício moral onde haverá o caos total.

TOPO