Editorial

Ignoramos nossos heróis

A empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, foi escolhida pelo jornal inglês Financial Times como uma das 25 mulheres mais influentes do mundo. Luiza é a única brasileira da lista, na categoria líderes. Há cerca de dois meses ela já havia aparecido na lista de 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time.
Nos anos 70, o empresário e engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel já produzia carros elétricos, que foram hostilizados na época e acabaram em esquecimento. Hoje a Tesla, fabricante de carros elétricos, vale mais do que GM, Ford, Ferrari e outra porção de montadoras juntas. Um pouco antes disso, outro brasileiro, um tal de Santos Dumont, inventou nada menos que o avião, que mudou o jeito da humanidade explorar o mundo.
E a doutora Zilda Arns? Criou a Pastoral da Criança, preferia a vida entre os pobres, inventou a mistura que tirou milhões de crianças da desnutrição, salvou milhares de vidas. Morreu em um terremoto, enquanto lutava para dar vida digna a cidadãos haitianos, em uma das nações mais pobres do planeta.
E a pesquisadora Jaqueline Goes de Jesus? Essa pouco brasileiro conhece. Jaqueline liderou o sequenciamento do genoma de uma variante da Covid-19 no Brasil, mas quase ninguém a reconheceria. No Brasil. Lá fora ela é notoriedade para muita gente. Foi escolhida pela fabricante de brinquedos Mattel para ser uma das bonecas Barbie da empresa que homenageiam mulheres que fizeram a diferença na luta contra o coronavírus.
Sem generalizar, mas também não é exagero que o brasileiro não dá a mínima para seus grandes líderes, para pessoas que fazem a diferença em suas áreas de atuação. Exceto atletas e artistas, a população em geral não tem ídolos ou mesmo pessoas que as encorajem e as inspirem.
Recentemente, o ex-ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli, concorreu ao prêmio Nobel da Paz por seu trabalho na agricultura tropical. Liderando cientistas, pesquisadores e agricultores nos anos 1970, Paolinelli conseguiu fazer agricultura no cerrado e mudou o sistema de produção de alimentos em regiões tropicais em todo o planeta. Não ganhou.
Aliás, não existe nenhum brasileiro que tenha ganhado algum título do Nobel, em qualquer área que seja. E não é porque não temos brasileiros brilhantes. Temos, mas não os apoiamos, não nos importamos com eles, não nos engajamos em suas causas, em suas convicções. Não chega a ser uma síndrome de vira-lata, mas parece que tudo que é de fora é melhor, tudo que os estrangeiros fazem é melhor. E esquecemos de olhar para o nosso quintal, para nós mesmos, e valorizar nossas pratas da casa.
Ignoramos nossos heróis, nossos verdadeiros líderes, até debochamos deles. Não que Luiza Trajano seja uma heroína, mas sua história é tão inspiradora, suas ações são tão assertivas, que alguns dos maiores meios de comunicação do planeta se rendem a ela. Temos heróis reconhecidos pelo mundo inteiro, mas ignorados por sua própria população.

Não existe nenhum brasileiro que tenha ganhado algum título do Nobel, em qualquer área que seja. E não é porque não temos brasileiros brilhantes

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