Tarcísio Vanderlinde

Jerusalém entra na Guerra dos Seis Dias

Com exceção de poucas dezenas de caças, no ano de 1967 Israel tinha um aparato bélico sucateado e muito inferior ao dos seus inimigos. Os veículos de transporte de tropas eram da Segunda Guerra Mundial. Também não podia contar com ajuda dos Estados Unidos, afundados na Guerra do Vietnã, e muito menos da Inglaterra e França, que não queriam colocar em risco os negócios com os árabes.

O planejamento israelense foi essencial para o êxito da guerra. Além de bombardear as pistas das bases aéreas egípcias num ataque surpresa, a incipiente força aérea israelense deixou praticamente fora de ação, ainda em solo, quase todos os modernos caças soviéticos de que o inimigo dispunha. Mas a guerra ainda teria desdobramentos sangrentos em terra tanto no deserto do Sinai como na cidade de Jerusalém.

Jerusalém oriental fora conquistada, reconquistada, unificada ou liberta (depende como o leitor costuma ver o conflito) por um batalhão de paraquedistas após 19 anos de domínio jordaniano sobre aquela parte da cidade. Judeus que secularmente podiam circular pela cidade e fazer suas preces no Muro das Lamentações haviam sido proibidos de chegar ao local. Cristãos só podiam visitar os lugares santos em momentos raros, e sempre mostrando alguma credencial que comprovasse sua crença.

Pelo fato de a ação ter sido levada a efeito por um batalhão de paraquedistas, imagina-se que o ataque à cidade velha de Jerusalém e seus arredores tenha sido aéreo. Não: foi passo a passo, pelo chão e principalmente à noite. O historiador Steven Pressfield, a partir do depoimento de seus entrevistados, descreve violentas escaramuças urbanas das forças de Israel contra guarnições jordanianas profissionalmente treinadas pelos britânicos e entrincheiradas na cidade velha, onde ficam lugares santos para cristãos, judeus e muçulmanos.

Pressfield esclarece que a libertação da cidade velha de Jerusalém e do monte das Oliveiras não estavam nos objetivos iniciais da guerra. Teriam sido as atitudes ambíguas do rei Hussein da Jordânia em relação ao conflito que acabou colocando Jerusalém no cenário de guerra.

Moshe Dayan tinham receio que um ataque malsucedido à cidade velha de Jerusalém, com eventuais danos aos lugares santos, pudesse ter consequências imprevisíveis para Israel. A propósito, Dayan mostrou toda sua indignação quando um paraquedista teria desfraldado uma bandeira de Israel no Domo da Rocha, que fica no lugar em que se acredita que outrora estivera o Templo de Jerusalém. Mas quem foi Dayan?

Foi um general que, juntamente às demais lideranças militares e políticas de Israel, se identificou como um guerreiro com princípios, e este parece ser o ponto alto do livro de Pressfield: mostrar que em um general aparentemente duro, intransigente e arrogante se escondia um ser humano com peculiar humanidade.

Dayan havia crescido com árabes dos quais era amigo. Tinha clareza de que as disputas por fronteiras com seus amigos de infância e juventude decorriam em grande parte das demarcações artificiais que Inglaterra e França haviam feito no Oriente Médio ao final da Primeira Guerra Mundial.

 

Tarcísio Vanderlinde, professor na Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

 

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