Tarcísio Vanderlinde

Jerusalém no pé

Ao final de 2017 lancei um livro decorrente da experiência de ter visitado a Terra Santa. Milhões de pessoas de todos os recantos do planeta já fizeram a visita. Outras tantas ainda planejam com expectativa sua vez.

Há várias possibilidades de se construir um relato sobre a viagem. Minha narrativa não ignorou que se trata de uma região de embates milenares. O texto, contudo, adota uma postura pacifista em relação aos conflitos que se acirraram na região, principalmente a partir do século XX, tendo por motivação a dolorosa (re)territorialização do moderno Estado de Israel.

Faz diferença poder circular pessoalmente por locais onde aconteceram eventos que acabaram chegando a nós apenas indiretamente. É essa motivação que faz mover em direção à Terra Santa pessoas de tantas nacionalidades. Muitos lugares lembram uma história trágica do passado e continuam sendo ambientes potencialmente explosivos no presente. A recente declaração do presidente dos Estados Unidos reconhecendo Jerusalém como Capital de Israel gerou protestos pelo mundo.

A geografia da Terra Santa continua marcada por memórias que se mesclam e reforçam o imaginário de judeus, muçulmanos e cristãos. Por outro lado, as polêmicas criadas com objetivos políticos parecem ter pouca interferência no cotidiano de quem ali vive. A impressão que dá é que os conflitos são muito mais construídos de fora para dentro do que de dentro para fora.

Peregrinos que costumam visitar lugares considerados santos em Jerusalém, seja ela Ocidental ou Oriental, não costumam fazer perguntas sobre a mutante geografia do lugar. Decorrente da concepção de mundo, viajantes vão sendo impactados tendo percepções particulares sobre os lugares que visitam. É na crença de cada um que é reconhecido o sentido dos lugares que se visitam.

Pela importância de Jerusalém para a história e para os peregrinos que a visitam, acabei citando a cidade 45 vezes no meu curto livro. Só após ter caminhado pelas ruas de Jerusalém é que se compreende o porquê desta cidade atrair tantas pessoas de tantas procedências, sejam elas de ascendência judaica, muçulmana ou “gentia”, como foi o meu caso.

Viajando do Sul a Norte, aos cuidados de um motorista árabe, a última parada antes de Jerusalém foi a cidade de Jericó. Diversos eventos de antes da era cristã e dos tempos de Jesus aconteceram em Jericó, cidade que fica hoje na Cisjordânia. De acordo com relatos antigos, os peregrinos procedentes da Galileia que iam para as festas em Jerusalém, como a da Páscoa, por exemplo, desciam pelo vale do rio Jordão até Jericó. Dali subiam até a cidade de Jerusalém, que ficava “em cima da serra”.

Um pouco antes do túnel que atravessa o monte Scopus, e que proporcionaria a primeira visão da cidade, o guia compartilhou com os amigos que me acompanhavam um áudio da centenária canção “A cidade santa”. Então, foi cantando que senti que estava no limiar de uma cidade que continua a fascinar gerações desde a antiguidade. Difícil ficar indiferente. Por existir, Jerusalém inquieta o mundo.

 

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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