Dom João Carlos Seneme

JESUS, PORÉM, PASSANDO PELO MEIO DELES, CONTINUOU O SEU CAMINHO

O tema da Liturgia deste domingo (31) nos convida a refletir sobre a missão da igreja que continua a missão de Jesus. O Evangelho deste domingo aprofunda a reflexão de domingo passado (24) quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré e lê uma passagem de Isaías que narra a esperança do povo que esperava o Messias que viria libertá-los do sofrimento e da escravidão. Jesus, ao final da leitura, afirma: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

Num primeiro momento Jesus é admirado por todos. Os judeus tinham uma imagem do Messias esperado: queriam um Messias espetacular que viria libertá-los e se tornar o novo rei. Mas Jesus apresenta a proposta de um profeta e retoma alguns relatos do Antigo Testamento, em que Deus socorreu estrangeiros. Isto provocou ódio entre os seus conterrâneos que o ameaçaram de morte.

O texto evangélico deste domingo deixa claro que a missão de Jesus como profeta não será fácil. O caminho de Jesus e sua comunidade será marcado por perseguições, incompreensões e morte. O fundamental é não temer, ter a confiança de que Deus está ao lado de Jesus e de sua igreja.

Hoje somos introduzidos no programa de vida de Jesus. Ele não será intimidado pelo medo, nada o afastará de sua missão de salvar a humanidade. O texto deixa claro que a liberdade de Jesus vence os inimigos (alusão à ressurreição) e a evangelização segue o seu caminho (“passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”), até atingir os que estão verdadeiramente dispostos a acolher a salvação/ libertação (alusão a Elias e Eliseu, que se dirigiram aos pagãos porque o seu próprio povo não estava disponível para escutar a palavra de Deus).

Neste texto programático, Lucas anuncia o caminho da Igreja: a comunidade de fé toma consciência de que, em continuidade com o caminho de Jesus, a sua missão é levar a Boa Nova aos pobres e marginalizados – como Elias fez com uma viúva de Sarepta ou como Eliseu fez com um leproso sírio. Se percorrer esse caminho, a igreja viverá na fidelidade a Cristo.

Por que as pessoas daquele tempo rejeitam o profeta que fala em nome de Deus? Porque ele fala de coisas desagradáveis que incomodam e questionam o comodismo, a escolha que fazem e os convidam a rever atitudes, a mudar de vida e colocar-se no caminho indicado pelo evangelho e por Jesus Cristo. Hoje não é muito diferente. Se realmente assumirmos nossa missão de batizados, continuadores da obra de Jesus e começarmos a colocar o dedo nas feridas de nossas comunidades seremos também rejeitados, perseguidos, convidados a procurar outra comunidade.

O mundo precisa de profetas do Evangelho. Hoje mais do que ontem. Cada um de nós é chamado a testemunhar o Evangelho com a vida e a palavra nas situações de todo dia: família, trabalho, escola, grupo de amigos, comunidades virtuais. Somos questionados a respeito de nossa responsabilidade com o outro, com o mundo, com a natureza. O cuidado da nossa casa comum bate à nossa porta e nos pede mais empenho, senão o pior pode acontecer. Só não podemos esquecer que não estamos sozinhos, existe um Deus amoroso e misericordioso que nos ampara e constantemente nos adverte e nos recorda que somos imagem d’Ele aqui e agora. “Coragem eu venci o mundo”!

 

* O autor é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

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