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Editorial

Lapso de sobriedade

 

Demoraram quase cinco meses para que o presidente Jair Bolsonaro enfim falasse algo que talvez agrade a gregos e troianos, à esquerda, ao centro e à direita. Disse que o Brasil é “um país maravilhoso, que tem tudo para dar certo, mas o grande problema é nossa classe política”. Talvez esse seja mesmo o maior dos problemas do gigante, que sempre conviveu, e convive, ao longo de sua história, com uma política extremamente cara, corrupta e, especialmente, ineficiente.

Se o brasileiro convive diariamente com pouca grana no bolso, filas imensas no Sistema Único de Saúde, muros e grades que já não amedrontam os bandidos, escolas com alguns dos piores índices de aprendizado do planeta, esgoto a céu aberto, fome e sede, é porque as políticas públicas não são executadas como deveriam. Governantes do país que é uma das dez maiores economias do planeta e cobra alguns dos impostos mais caros do mundo não podem se dar ao luxo de errar, ao menos não tanto assim. Se é que isso pode se chamar de erro.

Um único deputado federal consome uma centena de milhares de reais todos os meses. São mais de 500 que hoje, por exemplo, só pensam na política, no que podem ganhar com seu posicionamento frente à reforma da Previdência, ao invés de representar os reais interesses da sociedade brasileira. Trabalham muito pouco e oneram os cofres públicos com bilhões de reais todos os anos. A coisa se repete no Senado, nos ministérios, nos governos estaduais, nas autarquias, nas prefeituras e Câmaras de Vereadores. O custo da política brasileira é altíssimo.

Em contrapartida a esse alto custo, pago por cada um dos trabalhadores, governantes entregam muito pouco. Muitas cidades estão abandonadas, à beira do colapso, enfrentam problemas críticos que não são resolvidos há décadas, estão no mapa da desigualdade, da pobreza, da falta de infraestrutura, da falta de oportunidades de trabalho. Faltam escolas, hospitais, ruas, equipamentos para o lazer, faltam políticas para os jovens, para as mulheres. E o pior: não é para lá que eles estão olhando.

Não bastasse esse alto custo e a falta de competência, tem a política brasileira uma relação íntima e duradoura com a corrupção, que leva para os bolsos de meia dúzia o que deveria ser para aplicar no bem de todos. Corrupção que começou antes do PT e não vai acabar com o governo Bolsonaro – talvez nunca. As cadeias nunca tiveram tão cheias de poderosos, e tem espaço para muita gente ainda.

A classe política é, sem sombra de dúvidas, um fardo que o brasileiro precisa carregar, mesmo a contragosto. A evolução para uma política mais séria, honesta e eficiente é uma necessidade que o Brasil tem, embora não haja resquícios de que algo do gênero possa acontecer, ao menos no futuro próximo. O Brasil está preso a uma classe política opressora, custosa e, a grosso modo, inútil.

Bolsonaro já disse e desdisse um monte de abobrinhas nesses quase cinco meses de mandato. Na segunda-feira (20), no entanto, mostrou que ainda há coerência em seus discursos acalorados, mesmo que tenha sido apenas um lapso de sobriedade.

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