Editorial

Leitura sem livro

Não deixar ninguém para trás é uma expressão usada para sustentar a ideia de que todos os indivíduos são importantes, devem ser integrados em ações de pessoas e instituições. Nos filmes de guerra de Hollywood, ela aparece geralmente quando um soldado é capturado, mas o pelotão volta para tirá-lo das mãos inimigas. Rambo fazia isso muito bem.

Com a chegada do coronavírus, a educação sofreu um baque. O fechamento de escolas, colégios e universidades sentenciou milhões de pessoas a buscar novas alternativas de ensino para suprir a falta das aulas presenciais. As instituições de ensino tiveram que se adequar para fazer chegar o conteúdo das aulas nas casas dos alunos. Para isso, tem implementado aulas via internet ou aplicativos. E o que isso tem relação com “não deixar ninguém para trás”?

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É porque para acessar esses conteúdos os alunos precisam de smartphones, tablets ou computadores, e muitos, especialmente os da rede estadual de ensino, não têm esses aparelhos. Sequer uma televisão, que também é um canal de acesso às aulas virtuais estaduais. Estão ficando para trás.

Em Marechal Cândido Rondon e em muitos municípios da região, escolas, colégios e entidades lançaram o alerta e estão promovendo campanhas para doação de aparelhos usados. Quem tem um celular velhinho em casa, já sem uso, pode doar o aparelho antigo para que sejam entregues a estudantes carentes. Claro que não pode ser aquele tijolão ou estar estragado. Precisa funcionar e ter acesso à internet.

O ensino regular feito em casa foi uma necessidade urgente. As instituições estão aprendendo a lidar com esse novo cenário, que pegou todos de surpresa. Não dá para culpar ninguém pelas deficiências que pais, professores e alunos já notaram da “nova modalidade de educação”. Ainda há muitos desafios, no entanto, um dos principais gargalos é fazer com que cada criança ou adolescente tenha um telefone para poder continuar estudando. É como propor a leitura de um livro, mas sem livro. É como navegar sem um barco. Diante de tal cenário, essas crianças, que estão em famílias economicamente mais vulneráveis, ficam ainda mais vulneráveis. Mas não estão invisíveis.

Se a educação temporariamente mudou às pressas e assim deixou desamparados, há professores e pessoas da sociedade organizada que perceberam e estão agindo em prol dessas pessoas, para ajudar esses estudantes. Pessoas e entidades observaram a necessidade e estão fazendo um belo papel ao lembrar de que ninguém pode ser deixado para trás. E não tem nada a ver com os filmes de Hollywood, é a vida real, na batalha travada contra esse inimigo comum.

Não se sabe quanto tempo essa pandemia vai manter as instituições de ensino fechadas. Não há previsão para a reabertura das escolas e universidades. Até isso acontecer, os mais pobres vão precisar de atenção especial. Vivem duras realidades, mas precisam ter, no mínimo, o mesmo acesso à educação, a mesma possibilidade para estudar.

Nesse momento, não deixar ninguém para trás significa mobilizar para que todos tenham acesso à tecnologia. A sociedade está vivenciando profundas mudanças. O que um dia parecia luxo hoje é essencial.

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