Copagril
Arno Kunzler

Lembranças da Páscoa

Para quem, como eu e tantos leitores, já atravessou meio século de vida e vê as lembranças da infância cada vez mais distantes, indiferente do estilo e da forma que foram vividas, certamente carrega consigo momentos que gostaria de relatar, momentos que marcaram para toda a vida.
Uma dessas lembranças, no meu caso, é a Sexta-feira Santa. Minha mãe, que nas próximas semanas deve completar 100 anos de vida, e a maioria das outras mães daquela época, estabeleciam o ritual para a família na Sexta-feira Santa.
Não era um dia qualquer, porque gerava um estranho e agradável silêncio…
O dia começava com a refeição leve e muitas orações, diferente dos demais dias de trabalho.
Era abstinência não só de carne vermelha…
Só comíamos, a não ser escondido, durante as refeições e essas eram cuidadosamente preparadas para não extrapolar o cardápio permitido.
As mães envolviam a família toda, especialmente as crianças, nas atividades de preparação da Páscoa.
Naquele dia era proibido qualquer atividade pesada, mas o trabalho era intenso e o que mais esperávamos era a hora de preparar os doces…
Ninguém queria estar fora da organização e perder os momentos mais deliciosos.
Cada um dava seus palpites, especialmente para pintura dos ovos de Páscoa, cuja arte aprendíamos desde os primeiros anos de vida.
Cada criança queria pintar um ovo diferente, com a sua marca e conseguia, era fácil… depois encher o ovo com amendoim e finalmente colar a tampinha, tudo artesanal.
Eu pessoalmente gostava mais de rechear a cuca, quase sempre fazia sobrar aquele farelo doce da cobertura…
Isso não era bom, era muito bom, impossível não comer escondido…
Talvez pela abstinência obrigatória, porque fora das refeições era rigorosamente proibido comer qualquer tipo de comida, isso era ainda mais gostoso.
Lidar com essas coisas, pintando bolachas, preparando os ovos de Páscoa e “ajudando” a cuidar da cuca era algo que esperava-se durante meses, desde a coleta das primeiras casquinhas de ovos para posteriormente serem pintadas e utilizadas naquele dia.
Varríamos o pátio e à tarde íamos todos à igreja – programa obrigatório.
A data não era só importante porque ninguém falava noutra coisa e, a gente, criança, morria de pena de Jesus morto na cruz depois do calvário.
Na noite de Páscoa fazíamos vigília escondidos dos pais para ver que horas o coelho entrava na casa, onde estavam os chapéus virados para cima, esperando os presentes.
Cada um tinha sua expectativa, dentro dessa simplicidade, dessa fome por um chocolate ou um ovo de Páscoa e vivia aquilo tão intensamente que parecia único.
Talvez por isso, inesquecível.
Os tempos mudaram, as crianças, as mães e os sentimentos não são mais iguais.
Nesse dia, especialmente, dá uma louca saudade e uma vontade imensa de ser criança e sentir tudo aquilo outra vez.

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