Arno Kunzler

Longa caminhada

O Brasil, infelizmente, caminha a passos de tartaruga para consolidar o seu processo democrático, com eleições livres e participativas, e um sistema de governo que permita ao cidadão ter acesso aos serviços básicos como saúde, educação e segurança.

Perdemos as oportunidades recentes para melhorar nosso sistema político e desenvolver um projeto de administração público, menos burocratizado e com espaço para a meritocracia.

A primeira grande oportunidade aconteceu durante o governo do PSDB, entre o primeiro e segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cuja atuação política, ao invés de propor mudanças na essência do nosso sistema partidário e eleitoral, preferiu gastar toda energia para aprovar o projeto de reeleição.

E deu certo, a reeleição foi aprovada e se mostra agora a mais nefasta decisão política do seu governo.

Nem mesmo a Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada no mesmo período para conter os gastos públicos em todas as suas esferas, conseguiu frear o ímpeto das campanhas eleitorais sobre os orçamentos da União, Estados e municípios.

As reeleições têm hoje um preço impagável.

Os partidos viraram balcões de negócios, terra sem lei e sem ordem. Ali tudo acontece, nas barbas da Justiça Eleitoral.

Os políticos bons se perderam no meio desse emaranhado de promessas e passaram a vender suas decisões para os governos.

O segundo governo de FHC apenas serviu para consolidar as privatizações, de forma acertada, diga-se a bem da verdade, e depois segurar a inflação que ameaçou voltar com força.

E chegamos ao governo do PT, quando Lula teve condição política semelhante a de FHC e também preferiu desviar as reformas que eram e continuam sendo necessárias para vender uma imagem de “salvador” que distribuiu renda aos pobres e fartou os brasileiros ligados ao PT com obras públicas.

Quem não ganhou dinheiro com a corrupção desenfreada ganhou o direito de distribuir obras para ser recompensado pelo favor.

O Brasil chegou ao governo Dilma Rousseff já sem condição nenhuma de ser generoso.

Era tarde, mas ainda estava em tempo para colocar o dedo na ferida e produzir reformas, as mesmas que ainda não foram feitas e que agora, pasmem, precisa uma CPMF por ano para serem custeadas.

Aí chegou o processo de reeleição.

Sem popularidade e sem o desenvolvimento prometido, o PT seria derrotado nas urnas.

Mas como sempre em política surgem soluções, acabamos vivenciando o mais inusitado processo de compra de votos que se poderia imaginar.

De um lado, os eleitores menos favorecidos foram amedrontados pelo discurso de que os programas sociais seriam cortados por um eventual adversário do PT, caso eleito.

Por outro lado, a facilidade criada e mostrada todos os dias, que finamente no Brasil a energia elétrica estava mais barata, um “milagre”, só acontece em campanha eleitoral. A população que andava de carro e que produz, e portanto consome petróleo, recebeu de presente durante a campanha os preços dos combustíveis congelados.

Além disso, os juros segurados artificialmente promoviam recordes de vendas de automóveis e casas, principalmente passando a ideia do bem-estar.

Bom, o PT não aprendeu isso fazendo oposição e nem nos sindicatos.

Aprendeu isso com Sarney, que em 1986, após ver o Plano Cruzado fracassar, segurou os preços congelados até um dia depois das eleições.

Resultado: o Plano Cruzado foi um fracasso, mas a eleição proporcionou a vitória do PMDB em todos os Estados, com shows cinematográficos, helicópteros sobrevoando fazendas a procura de gado para ser confiscado.

O mensalão como vimos não nasceu dentro do PT, pelo contrário, nasceu em Minas Gerais durante um governo de Eduardo Azeredo do PSDB.

O que o PT soube fazer, e fez muito bem, foi aprimorar as ferramentas de corrupção e estelionato eleitoral que guardava na memória, já praticadas, de forma amadora, em outros governos.

A profissionalização e a institucionalização da corrupção, a utilização da máquina governamental para fazer campanhas eleitorais é um legado gigantesco que amedronta e ameaça a democracia.

Essa mesma máquina que agora está sendo mobilizada para evitar o impeachment, cooptando votos de deputados e senadores e mobilizando estruturas humanas, chamadas de bases sociais.

Na verdade são grupos arregimentados para atuar em caso de necessidade, como aquele documento de posse que a Dilma mandou para o Lula. Use se precisar…

Como é o caso do MST, que agora mostra sua cara em Santa Terezinha de Itaipu e os que tomam as ruas das grandes cidades carregando as bandeiras vermelhas do PT e do PCdoB.

E aí vem a pergunta: o que o governo do PT de quase 16 anos fez de concreto para resolver o problema das famílias sem-terra?

Assim como o PSDB não resolveu o problema político no início da década de 90, o PT não resolveu os problemas sociais das duas décadas seguintes.

Saímos de 24 anos de governo PSDB/PT praticamente como entramos, sem partidos organizados; sem um sistema de governo capaz de oferecer saúde, educação e segurança; sem ter controlado a inflação; sem ter desenvolvido um parque industrial tecnológico; e, pior de todos, sem termos melhorado o Ensino Fundamental.

A única coisa que melhorou, e muito, foi a arrecadação dos impostos.

Algo precisa mudar, não basta o povo na rua e nem o impeachment.

Precisamos encontrar um jeito novo de governar e fazer política.

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